Prêmio Fundação Bunge 2020

O Prêmio

Prêmio Fundação Bunge irá contemplar em 2020 profissionais das áreas de Ciências Agrárias, com o tema Impacto das mudanças climáticas na produção de alimentos e Ciências Biológicas, Ecológicas e da Saúde, com o tema Prevenção de doenças infecciosas.

As indicações ao Prêmio serão feitas pelas principais universidades e entidades científicas do Brasil, e em seguida, Comissões Técnicas compostas por especialistas em cada área de premiação irão avaliar e escolher os homenageados com o prêmio deste ano. Os contemplados serão conhecidos no segundo semestre de 2020.

Como funciona o prêmio

Todos os anos, o Prêmio Fundação Bunge contempla duas personalidades pelo conjunto de seus trabalhos (categoria Vida e Obra) e dois jovens talentos de até 35 anos que se destacam em seus campos de atuação (categoria Juventude).

A Fundação Bunge conduz com extremo rigor o processo de escolha dos ramos de atividade e dos homenageados.

Escolha dos ramos de premiação

O Prêmio Fundação Bunge contempla seis áreas do conhecimento humano. São elas: Ciências Biológicas, Ecológicas e da Saúde; Ciências Exatas e Tecnológicas; Ciências Agrárias; Ciências Humanas e Sociais; Letras; e Artes.

A área de Ciências Agrárias é fixa, sendo contemplada todos os anos. As demais seguem um sistema de rodízio. O Conselho da Fundação Bunge seleciona os ramos dentro da área definida.

Indicação e seleção dos homenageados

Para concorrer ao Prêmio Fundação Bunge, os candidatos devem ser indicados por representantes das principais universidades e entidades culturais e científicas do país por meio de formulários on-line. As universidades e entidades convidadas pela Fundação Bunge para fazerem indicações ao prêmio deste ano, receberão orientações, login e senha por e-mail. A partir das indicações, Comissões Técnicas, compostas por especialistas nas áreas de premiação, elegem os homenageados nas categorias Vida e Obra e Juventude.

Conheça um pouco mais sobre os temas

Ciências Agrárias: O Impacto das Mudanças Climáticas na Produção de Alimentos

Prever cenários, antecipar dificuldades e tomar as medidas necessárias para contorná-las, com base no conhecimento mais consolidado, a cada momento. Na história da humanidade, é assim que a Ciência tem nos permitido superar os mais graves desafios que se apresentam, com o mínimo de perdas, e é assim que ela seguirá sendo o mais valioso recurso de que dispomos para garantir o melhor futuro possível.

Em um mundo com mais de 820 milhões de pessoas passando fome – ou cerca de 2 bilhões, se contabilizadas também as pessoas em estado de "moderada" insegurança alimentar, de acordo com os critérios da FAO (agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) –, a produção de alimento suficiente e de qualidade para todos representa objetivo essencial à vida humana. Mais que isso: se a intenção é zerar os números atuais da fome até 2030 – um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definidos pelas Nações Unidas –, além de essencial, a solução se faz urgente.

É por isso – e pela tradição de todo ano prestigiar as Ciências Agrárias nacionais, ao lado de algum outro ramo das Ciências, das Letras e das Artes – que o Prêmio Fundação Bunge elege como um dos temas de 2020 O Impacto das Mudanças Climáticas na Produção de Alimentos.

De modo geral, é consenso na comunidade científica que a origem das mudanças climáticas está na ação do homem. No início do século XXI, já não resta mais dúvida de que as atividades humanas têm sobrecarregado a atmosfera com gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO2) ou o metano (CH); que a alta concentração desses gases tem feito a temperatura média da Terra se elevar, ano após ano; e que esse aquecimento tem implicações diversas – e não de todo conhecidas – sobre todos os organismos vivos e cadeias biológicas do planeta. O que, no fim das contas, reflete-se no que conseguiremos produzir para alimentar 7,5 bilhões de pessoas (ou 10 bilhões, até o meio do século).

Enquanto os termômetros indicam temperaturas mais altas, lavouras se tornam menos produtivas e mais vulneráveis a patógenos; solos se tornam menos férteis; corpos d’água se tornam mais desafiadores para milhares de espécies aquáticas, que sucumbem ou têm severamente diminuídas suas taxas de reprodução. Isso para não falar nos eventos extremos, como secas ou chuvas torrenciais que, com cada vez mais frequência, atingem regiões ou nações inteiras.

Mas essa é a má notícia. A boa é que a Ciência não está parada. Em todo o mundo e também no Brasil, há uma legião de homens e mulheres dedicados não apenas a solucionar os problemas conhecidos – buscando espécies capazes de resistir às condições ambientais adversas trazidas pelo aquecimento global, desenvolvendo produtos e processos que ajudem a reduzir esse aquecimento –, mas também, principalmente, dedicados a conhecer os impactos que ainda virão. São pesquisadores e pesquisadoras que buscam prever cenários e antecipar dificuldades, para orientar as medidas que devem ser tomadas na cadeia produtiva que alimenta o mundo.

Trata-se de um empreendimento de dimensão global, que exige visão multidisciplinar. Como diz o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e membro do Conselho Administrativo da Fundação Bunge Adalberto Luis Val, "precisamos conhecer os efeitos individualizados da temperatura ou do CO2 num processo fisiológico, numa determinada rota metabólica ou se determinada espécie cresce menos ou mais; mas precisamos começar a avaliar, também, as situações mais holisticamente, para desenvolver sistemas que possam sobreviver a essas mudanças ambientais todas com mais produtividade, sem deixar ninguém para trás".

Segundo o biólogo, é preciso “entender o sistema a partir do que conhecemos, sistematizar o vasto conjunto existente de informações técnico-científicas, para agir com segurança”, mas também é preciso não parar de fomentar a produção de novo conhecimento. “A boa Ciência produz a informação que vamos precisar no momento seguinte. É preciso entender que a Ciência não pode ficar desassistida e só ser ativada na hora em que acontece o desafio”. Seja esse desafio vencer a insegurança alimentar que acomete bilhões, seja combater as causas das mudanças climáticas. Ou, ainda, proteger a humanidade de outros inimigos não menos letais.

No ano em que o mundo enfrenta uma das maiores ameaças à saúde pública da história moderna, a Fundação Bunge não poderia deixar de homenagear também profissionais da área das Ciências Biológicas, Ecológicas e da Saúde, especificamente aqueles dedicados à Prevenção de Doenças Infecciosas, o outro tema do Prêmio Fundação Bunge em sua 65a edição. Em tempos desafiadores, a produção de alimentos e a prevenção de doenças devem andar de mãos dadas, tanto para garantir a segurança alimentar de todos como para reduzir o impacto das infecções virais. Para isso, a presença firme e competente da Ciência – com a inclusão e o apoio do maior número possível de pessoas – se faz necessária.

Ciências Biológicas, Ecológicas e da Saúde: Prevenção de Doenças Infecciosas

"Desde que, no Iluminismo, as pessoas se rebelaram contra o autoritarismo e começaram a usar a força da razão para melhorar suas vidas, sempre descobriram formas de fazê-lo", escreveu o Nobel de Economia Angus Deaton, no livro A Grande Saída, de 2013, que prosseguia na previsão: "Há pouca dúvida de que isso continuará acontecendo e que permaneceremos tendo vitórias contra as forças da morte".

No momento em que o mundo enfrenta o que certamente é uma das maiores, senão a maior ameaça à saúde humana em um século, não é preciso ignorar ou menosprezar a gravidade do desafio para manter as esperanças. Como sabia o Nobel escocês, mais de uma vez na história da humanidade a razão e a Ciência provaram ser as armas mais apropriadas e, no fim das contas, bem-sucedidas no combate a inimigos invisíveis como o atual coronavírus (Sars-Cov-2), que pôs o mundo em alerta. E o Brasil tem participações importantes nesse histórico de vitórias.

Não poderia ser mais apropriado, portanto, que a Fundação Bunge tenha escolhido a Prevenção de Doenças Infecciosas como uma das áreas de onde sairão dois dos homenageados com o Prêmio Fundação Bunge deste ano.

Como nota o médico, ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências e membro do Conselho Administrativo da Fundação Bunge Eduardo Moacyr Krieger, o Brasil já está entre os 15 maiores produtores de Ciência do mundo – 13o lugar em número de artigos publicados, de acordo com dados da Clarivate Analytics de 2018 –, e, "quando se trata de doenças infecciosas, somos um dos primeiros. Aqui, temos boa tradição de pesquisa nessa área, começando lá com Oswaldo Cruz".

Krieger se refere, é claro, ao médico sanitarista que, à frente da Diretoria Geral de Saúde Pública (correspondente ao atual Ministério da Saúde), no início do século XX, capitaneou medidas de combate à peste bubônica, à febre amarela e à varíola. Medidas empreendidas tanto nas linhas de frente – captura de vetores (ratos e mosquitos), desinfecção de moradias e vacinação – quanto na retaguarda, nos laboratórios onde cientistas buscavam compreender os patógenos, para desenvolver as armas que eventualmente os venceriam.

Oswaldo Cruz foi o pioneiro de uma longa lista de outros heróis nacionais, cujas vidas e obras salvaram e ainda salvam milhões: de Carlos Chagas – que em 1909 descobriu a doença causada pelo protozoário (batizado em homenagem a Oswaldo Cruz) Trypanosoma cruzi, transmitido pelo inseto barbeiro – até o grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo que, em fevereiro deste ano, em menos de 48 horas após confirmado o primeiro caso da Covid-19 no Brasil, decifraram todo o código genético do novo vírus. "Esse exemplo, assim como o do surto da Zika [2015-2016], em que fomos capazes de rapidamente desenvolver testes sorológicos para diferenciar o vírus de outras infecções, mostram que já temos essa capacidade instalada", diz Krieger.

É assim que o Brasil vem colecionando vitórias como a erradição da varíola, em 1973, e da poliomielite, em 1989, conquistadas por um dos programas de vacinação mais bem-sucedidos do mundo, o Programa Nacional de Imunizações.

No entanto, como bem aponta o psicólogo e divulgador científico americano Steven Pinker, no livro O Novo Iluminismo, batalhas como essas não são vencidas apenas com "fármacos de alta tecnologia, como vacinas, antibióticos, medicamentos antirretrovirais e vermífugos. Elas também abrangem ideias – que podem ter uma implementação barata e parecer óbvias depois que já foram concebidas, mas que salvam milhões de vidas". Ideias como ferver ou filtrar a água, lavar as mãos e os alimentos, amamentar bebês, entre outras ações simples que precisam ser adotadas por todos como hábitos cotidianos, prescritos e defendidos por meio de uma educação que faça a humanidade valorizar, apoiar e acreditar na Ciência como, em outros momentos difíceis, já acreditou.

"Precisamos combater os focos de ignorância", diz Eduardo Krieger, que nota que "a doença não tem fronteira, partido ou religião". É para ajudar nesse combate em favor da Ciência, da razão e da saúde, portanto, que a Fundação Bunge dedica mais uma edição do seu Prêmio Fundação Bunge.