Prêmio Fundação Bunge: conheça Raul Victor Magalhães Souza
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Jovem pesquisador do Ceará uniu inteligência artificial a saberes tradicionais para criar ferramenta de previsão pluviométrica voltada aos produtores rurais

Tema: “Inovação em processos de transferência de tecnologias e conhecimentos para a agricultura familiar”
Categoria: 
Juventude
Premiado: 
Raul Victor Magalhães Souza

Em uma região do País onde a chuva determina o sucesso ou o fracasso de uma safra, prever com maior precisão os períodos de estiagem pode fazer toda a diferença para os produtores rurais. Foi com esse desafio em mente que Raul Victor Magalhães Souza, estudante de uma escola pública de tempo integral em Iracema (CE), a mais de 200km de Fortaleza, desenvolveu um sistema de inteligência artificial capaz de transformar conhecimentos tradicionais em uma ferramenta de apoio à previsão pluviométrica. O projeto, que combina tecnologia e saberes populares dos chamados “profetas da chuva”, rendeu ao jovem pesquisador o Prêmio Fundação Bunge 2026, na categoria Juventude, do tema Inovação em processos de transferência de tecnologias e conhecimentos para a agricultura familiar.

Morador do Vale do Jaguaribe, região marcada pela irregularidade das chuvas, Raul cresceu ouvindo histórias contadas pelo avô, agricultor, sobre pessoas que observavam sinais da natureza para prever os períodos chuvosos. Essas observações incluem o comportamento de animais, plantas e fenômenos naturais que, há gerações, ajudam comunidades rurais do semiárido a tomar decisões sobre o plantio. Anos depois, o estudante decidiu transformar essa tradição popular em objeto de pesquisa. 

“Meu avô sempre me falava sobre os “profetas da chuva”. Quando recebi uma bolsa de iniciação científica, pensei que poderia unir esse conhecimento cultural à inteligência artificial para ampliar sua aplicação”, conta. O resultado foi o desenvolvimento de uma ferramenta de aprendizado de máquina para a predição pluviométrica baseada nos saberes tradicionais.

A proposta busca oferecer aos produtores rurais mais uma fonte de informação para apoiar decisões relacionadas ao plantio e ao manejo das lavouras, especialmente em uma região que convive historicamente com eventos climáticos extremos. “Aqui existe uma grande irregularidade pluviométrica, e esse cenário tende a se aprofundar por causa das mudanças climáticas. Quero que essa ferramenta contribua para reduzir perdas e apoiar quem vive da agricultura”, afirma.

O papel da escola no desenvolvimento da paixão pela ciência
A relação de Raul com a pesquisa científica começou muito antes do projeto premiado. Filho de uma professora de Língua Portuguesa e Redação, ele cresceu em um ambiente que valorizava a educação. Ainda no Ensino Fundamental, demonstrava interesse pela ciência, e o incentivo encontrado na escola foi essencial para transformar essa curiosidade em uma trajetória acadêmica precoce. “Eu já falava que queria desenvolver projetos científicos. Quando entrei no Ensino Médio, tive a oportunidade de participar de programas de iniciação científica e foi aí que a minha paixão pela ciência realmente cresceu”, lembra.

Seu primeiro projeto envolvia pesquisas sobre o potencial terapêutico do óleo de tilápia para o tratamento da esclerose múltipla, tema relacionado ao interesse que nutre desde criança pela área da saúde. Com o passar do tempo, porém, surgiram novas oportunidades. Por meio de uma bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica para o Ensino Médio (PIBIC-EM), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), promovido em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), Raul passou a desenvolver uma nova pesquisa, inspirada nas histórias que ouvia do avô. O projeto aproximou o estudante do ambiente universitário ainda no Ensino Médio e deu origem ao trabalho que mais tarde conquistaria reconhecimento nacional e internacional.

Da tradição local aos palcos internacionais
Para construir o projeto, Raul entrevistou “profetas da chuva” de diferentes municípios do Vale do Jaguaribe e procurou compreender os critérios utilizados por eles para realizar suas previsões. O trabalho exigiu conversas com moradores da região, visitas de campo e um mergulho em conhecimentos transmitidos entre gerações. “Foi muito interessante conhecer melhor essa cultura e conversar com pessoas que observam a natureza há décadas. Quando falo sobre os eles para pessoas da minha idade, muitos nem conhecem essa tradição”, conta.

Durante o desenvolvimento da pesquisa, Raul contou com a orientação da professora Roberta Jeane Bezerra Jorge, docente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), e do doutorando Helyson Lucas Bezerra Braz, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Morfofuncionais da instituição. O trabalho também recebeu apoio de professores da escola e permitiu que o estudante aprofundasse conhecimentos em áreas que não faziam parte de sua formação inicial, construindo uma proposta capaz de dialogar com diferentes campos do conhecimento. “Nem eu nem meus orientadores trabalhávamos originalmente com os “profetas da chuva”. Foi um processo de aprendizagem conjunta”, relembra.

O resultado foi uma iniciativa de caráter interdisciplinar, que integra climatologia, inteligência artificial, cultura popular e história local. Ao combinar elementos das ciências exatas, humanas e ambientais, o projeto ampliou o potencial de aplicação dos conhecimentos tradicionais em benefício dos produtores rurais.

A pesquisa cruzou registros meteorológicos históricos com observações de “profetas da chuva” da região e deu origem a um sistema desenvolvido em Python, capaz de apoiar previsões pluviométricas com 94,5% de precisão. Os resultados do trabalho levaram o jovem a participar de feiras científicas no Brasil e no exterior, ampliando seu contato com pesquisadores e estudantes de diferentes países. Além disso, foi por meio deste estudo que Raul conquistou o primeiro lugar nacional na categoria Ensino Médio da 31ª edição do Prêmio Jovem Cientista 2025, promovido pelo CNPq, e se tornou finalista do Stockholm Junior Water Prize, marcado para setembro deste ano. “Além do conhecimento, a ciência me permitiu fazer amizades ao redor do mundo. Conheci pessoas de diversos lugares e isso ampliou minha visão sobre o futuro”, afirma.

Persistência e novas oportunidades
Conciliar escola em Tempo Integral, preparação para o vestibular e atividades científicas nem sempre foi simples. Muitas vezes, as entrevistas com os “profetas da chuva” eram realizadas nos fins de semana, enquanto as análises e o desenvolvimento do sistema, à noite, a partir de casa. “O projeto exigiu muito esforço e dedicação. Precisei renunciar uma boa parte do meu tempo livre para fazer pesquisa”, afirma. Ainda assim, ele acredita na riqueza dessa experiência. “Vale a pena estudar e continuar na ciência. Quando você tem uma ideia inovadora e persiste nela, consegue alcançar coisas que parecem impossíveis.”

Ao receber o Prêmio Fundação Bunge, Raul também celebra a oportunidade de levar para todo o País uma tradição ligada à sua região e à história de sua família. “Meu avô ainda é vivo e fica muito orgulhoso quando vê esse reconhecimento. Para mim, é uma felicidade enorme poder mostrar que um conhecimento que faz parte da nossa cultura pode dialogar com a tecnologia e gerar benefícios para a sociedade.” Para o jovem pesquisador, a premiação representa a confirmação de que a ciência pode surgir em diferentes lugares, inclusive em uma escola pública do interior do Ceará, quando encontra incentivo, dedicação e oportunidades. Sua trajetória exemplifica como a aproximação entre escola pública, universidade e agências de fomento pode abrir caminhos para que jovens cientistas desenvolvam soluções inovadoras para desafios reais da sociedade. “Sem a bolsa, eu não teria a maturidade científica que tenho hoje. Muitos jovens têm vontade de fazer pesquisa, mas têm receio. Eu sempre incentivo que encontrem algo de que realmente gostem. A ciência abre portas, cria conexões e faz a gente perceber que pode chegar muito mais longe do que imaginava”, finaliza.

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