Pesquisador da Embrapa contribuiu para colocar o Brasil na fronteira da biotecnologia e se tornou referência em pesquisas voltadas à resistência das plantas aos estresses térmico e hídrico
Tema: “Os desafios da agricultura tropical sustentável: produção em cenários de estresse térmico e hídrico”
Categoria: Vida e Obra
Premiado: Alexandre Lima Nepomuceno
Da identificação de genes associados à tolerância à seca à construção das bases regulatórias da edição gênica no Brasil, Alexandre Lima Nepomuceno participou de alguns dos avanços mais importantes da biotecnologia agrícola nas últimas décadas. Sua atuação contribuiu para fortalecer a agricultura tropical brasileira e ampliar sua capacidade de enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Atual Chefe-Geral da Embrapa Soja e uma das principais referências brasileiras em fisiologia vegetal e biotecnologia, Alexandre é o laureado do Prêmio Fundação Bunge 2026 na categoria Vida e Obra para o tema Os desafios da agricultura tropical sustentável: produção em cenários de estresse térmico e hídrico. A premiação reconhece uma trajetória marcada por descobertas científicas pioneiras, pela atuação na construção da legislação brasileira de biossegurança, pela liderança de iniciativas internacionais de pesquisa e pelo desenvolvimento de tecnologias que ajudaram a fortalecer a agricultura tropical no país.
O reconhecimento tem um significado especial para o pesquisador. Em 2000, ele já havia recebido o Prêmio Fundação Bunge na categoria Juventude. “Do ponto de vista pessoal e profissional, receber o prêmio em 2000 foi muito importante para mim. Ele me tornou conhecido e fez com que muitas pessoas viessem me procurar para entender o que eu estava fazendo. O prêmio serviu, inclusive, para trazer inovação para outras áreas da própria Embrapa”, conta. Agora, Alexandre se tornou o primeiro cientista a conquistar a premiação nas duas categorias ao longo da carreira.
A curiosidade científica que começou na infância
Filho de um bancário e de uma professora, Alexandre diz que sua relação com a ciência começou ainda na infância, impulsionada pela curiosidade e pelo interesse em entender como as coisas funcionavam. “Eu assistia a documentários científicos na televisão e gostava de fazer experimentos. Até ganhei um microscópio quando era criança. Aquilo me marcou muito”, lembra.
O interesse pela agricultura surgiu mais tarde, influenciado por um tio que possuía uma propriedade rural e pelas notícias sobre o potencial do Brasil no agronegócio. A escolha pela Agronomia o levou à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde encontrou na pesquisa científica sua vocação profissional. Durante a graduação, participou de projetos de iniciação científica nas áreas de melhoramento genético, entomologia e fisiologia vegetal. Foi nesse período em que ele percebeu que queria atuar como pesquisador.
Após concluir a graduação, Alexandre ingressou diretamente no mestrado em Fitotecnia na mesma universidade. Pouco tempo depois, foi aprovado no primeiro concurso público realizado pela Embrapa desde a criação da instituição, em 1990. Ali começaria uma trajetória que transformaria sua carreira e ajudaria a moldar parte importante da biotecnologia agrícola brasileira.
Em busca dos genes da resistência à seca
Ainda no início da carreira, Alexandre passou a investigar uma questão que continua mobilizando cientistas em todo o mundo: como as plantas conseguem sobreviver e produzir sob condições de estresse hídrico. A busca por essa resposta o levou aos Estados Unidos, onde realizou doutorado em Biologia Molecular e Fisiologia Vegetal na Universidade do Arkansas.
A experiência internacional trouxe desafios que iam além da pesquisa. Apesar de já dominar a leitura de artigos científicos em inglês, a comunicação oral ainda era uma barreira. A escolha por uma universidade com poucos brasileiros foi proposital. “Meu primeiro semestre foi muito difícil. Eu chegava em casa exausto porque precisava pensar em inglês o tempo todo. Mas sabia que precisava enfrentar esse desafio. Hoje falo fluentemente, represento o Brasil em vários países. E tento levar a importância de superar esse desafio para os meus alunos”, afirma.
Foi durante o doutorado que Alexandre passou a trabalhar com técnicas inovadoras de análise genética que permitiam observar milhares de genes simultaneamente, algo revolucionário para a época. O objetivo era identificar quais genes eram ativados quando as plantas enfrentavam situações de falta de água. O trabalho contribuiu para abrir uma nova frente de pesquisa na identificação de genes associados à tolerância ao estresse hídrico e acabou se tornando a base das pesquisas que lhe renderam o Prêmio Fundação Bunge na categoria Juventude, em 2000.
Da descoberta científica à inovação no campo
Ao retornar ao Brasil, Alexandre continuou ampliando seus estudos em biotecnologia vegetal. Ao longo das décadas seguintes, acompanhou e participou de algumas das transformações mais importantes já vividas pela agricultura moderna. Se, nos anos 1990, a grande fronteira tecnológica eram as descobertas genéticas, com o início do Projeto Genoma Humano que influenciou diversas as áreas do conhecimento, nas décadas seguintes surgiram novas ferramentas mais rápidas e mais baratas de edição genética.
Alexandre passou, então, a integrar iniciativas internacionais de pesquisa que contribuíram para ampliar o conhecimento científico sobre a soja e acelerar o desenvolvimento de cultivos mais resilientes aos desafios climáticos. Entre elas está sua participação em projetos de cooperação com instituições dos Estados Unidos, Japão e China, além de sua atuação no Consórcio Internacional de Sequenciamento do Genoma da Soja, iniciativa que ajudou a colocar o Brasil entre os protagonistas mundiais das pesquisas em genômica vegetal.
Entre 2011 e 2013, Alexandre coordenou as atividades do Laboratório Virtual da Embrapa no Exterior (Labex), nos Estados Unidos, aprofundando pesquisas em novas tecnologias de edição gênica. Foi nesse período que conheceu de perto os primeiros avanços que mais tarde impulsionariam o uso da técnica CRISPR, considerada uma das maiores revoluções da biologia contemporânea.
“Quando ocorre a seca, a soja começa a abortar. Aí ela mata alguns grãos, alguns legumes, para salvar outros. E tudo isso é um sinal molecular. A nossa hipótese era de alterar e retardar esse sinal molecular e, por consequência, o processo de abortar os legumes”, explica. “Essa técnica que eu utilizava era complicadíssima, custou mais de US$ 15 mil e levou mais de três meses para dar resultados. Aí, em uma conversa com outros pesquisadores, conheci o método CRISPR e consegui fazer algo semelhante em oito dias, com um custo muito menor”, lembra.
Atualmente, suas pesquisas estão voltadas ao desenvolvimento de novas variedades de soja mais resistentes aos desafios climáticos e com qualidade superior, como o aumento dos teores de ácido oleico, considerado um componente benéfico para a alimentação humana.
O papel na construção da biossegurança brasileira
Além da atuação científica, Alexandre teve papel relevante na construção do ambiente regulatório que permitiu ao Brasil avançar no uso seguro das biotecnologias. Em 2001, foi convidado a integrar a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão responsável por avaliar a segurança de organismos geneticamente modificados no país. Desde então, participa das discussões que orientam a regulamentação da biotecnologia brasileira.
Nesses mais de 20 anos, ele acompanhou a implementação da Lei de Biossegurança, sancionada em 2005, e participou da construção de normas que ajudaram a estabelecer critérios para avaliação de novas tecnologias. Entre suas contribuições está a participação na elaboração da Resolução Normativa nº 16, considerada um marco para a regulamentação da edição gênica no Brasil.
Segundo o pesquisador, a construção de regras claras e baseadas em evidências científicas foi fundamental para ampliar o acesso à inovação. “Quanto mais equilibrada e baseada em ciência é a regulamentação, maior é a possibilidade de universidades, instituições públicas, startups e empresas desenvolverem novas soluções para a sociedade”. Hoje, o modelo brasileiro é frequentemente citado em discussões internacionais sobre inovação e biossegurança.
Ciência, clima e o futuro da agricultura
Para Alexandre, a agricultura brasileira só alcançou o protagonismo atual graças aos investimentos públicos realizados em ciência nas últimas décadas. Ele cita como exemplo a adaptação de culturas originalmente desenvolvidas em regiões temperadas para condições tropicais. “A criação da Embrapa e os investimentos em pesquisa foram fundamentais. Hoje somos líderes mundiais em agricultura tropical porque investimos em conhecimento”.
Ao olhar para o futuro, o pesquisador acredita que os próximos grandes avanços virão da integração entre biotecnologia, edição gênica, inteligência artificial e análise de grandes volumes de dados. Na sua avaliação, essas ferramentas serão decisivas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas, aumentar a produtividade agrícola e desenvolver soluções mais acessíveis para produtores de diferentes portes.
Um legado construído por muitas mãos
Ao longo da carreira, Alexandre orientou e formou dezenas de mestres, doutores e pós-doutores, muitos dos quais hoje atuam em universidades, centros de pesquisa e empresas de inovação no Brasil e no exterior. Também participou da construção de redes científicas internacionais que contribuíram para ampliar a presença da pesquisa brasileira em debates estratégicos sobre agricultura, biotecnologia e biossegurança.
Para ele, a produção de conhecimento continua sendo um dos principais instrumentos para o desenvolvimento de um país. “O Brasil forma excelentes cientistas. Precisamos continuar investindo em educação, ciência e tecnologia para transformar conhecimento em inovação e oportunidades”, explica.
Ao receber o Prêmio Fundação Bunge 2026 na categoria Vida e Obra, Alexandre reforça uma convicção que o acompanha desde o início da carreira: o futuro da agricultura e da própria sociedade depende da capacidade de transformar ciência em soluções concretas. “Os países que investem em educação, ciência e tecnologia constroem seu futuro. O Brasil tem todas as condições para continuar sendo protagonista nesse caminho”, encerra.