Prêmio Fundação Bunge: conheça Paulo Eduardo Teodoro
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Sua trajetória une genética, inteligência artificial e agricultura digital para enfrentar a seca e o calor no campo

Tema: “Os desafios da agricultura tropical sustentável: produção em cenários de estresse térmico e hídrico”
Categoria: 
Juventude
Premiado: 
Paulo Eduardo Teodoro

Em um cenário marcado pelo aumento das temperaturas e pela ocorrência cada vez mais frequente de secas, encontrar formas de tornar a agricultura mais eficiente e resiliente se tornou um dos grandes desafios da ciência mundial. É justamente nessa fronteira do conhecimento que atua o pesquisador Paulo Eduardo Teodoro, contemplado com o Prêmio Fundação Bunge 2026 na categoria Juventude do tema “Os desafios da agricultura tropical sustentável: produção em cenários de estresses térmico e hídrico”.

Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Teodoro desenvolve pesquisas que combinam genética de plantas, agricultura digital, sensoriamento remoto e inteligência artificial para identificar, de forma rápida e precisa, sinais de estresse em culturas agrícolas como soja, milho e algodão. O objetivo é antecipar problemas causados pela falta de água, pelo excesso de calor, por doenças ou pragas e, assim, contribuir para uma produção mais sustentável. “Buscamos detectar alterações que muitas vezes ainda não são visíveis a olho nu. Quanto mais cedo identificamos um problema, maiores são as chances de minimizar perdas”, explica.

A tecnologia utilizada em seus estudos envolve sensores embarcados em drones, capazes de captar informações bioquímicas e fisiológicas das plantas. Com o apoio de modelos computacionais, esses dados ajudam a selecionar plantas mais resistentes e a orientar decisões no campo. A pesquisa se insere em uma área conhecida como fenotipagem de alta precisão, considerada uma das principais tendências da agricultura moderna. “É uma ferramenta que permite avaliar milhares de plantas de forma rápida, com alta precisão e em larga escala”, afirma.

Da paixão pelos números à pesquisa científica na Agronomia
Natural de Aquidauana (MS), Paulo Eduardo Teodoro cresceu em uma família de origem humilde. Filho de um mecânico e de uma vendedora, a primeira pessoa da família a concluir o ensino superior, teve nos pais os principais incentivadores de sua trajetória acadêmica.

Na escola, destacava-se pela facilidade com matemática, o que o levou inicialmente a sonhar com uma carreira na engenharia. Ao concluir o Ensino Médio, foi aprovado em Engenharia Civil em uma universidade particular. “Mas, incentivado por alguns amigos que já estudavam Agronomia, acabei prestando vestibular na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e fui aprovado para o mesmo curso”, lembra.

Diante das duas opções, Teodoro tomou uma decisão ousada: cursar as duas graduações ao mesmo tempo. Durante cinco anos, sua rotina foi dividida entre aulas integrais de Agronomia durante o dia e aulas de Engenharia Civil à noite. Entre viagens para os campi, trabalhos e provas, dormia poucas horas por dia. “Houve semestres em que eu cheguei a cursar mais de 20 disciplinas simultaneamente, mas eu tenho certeza de que essa experiência foi fundamental para a minha carreira. A Engenharia Civil me proporcionou uma base sólida em cálculo, física e estatística, que se tornaram um diferencial muito grande na minha atuação na Agronomia”. A união entre a realização de experimentos em campo e atividades de análise de dados foi o que despertou seu interesse pela produção científica. “Foi quando uni essas duas áreas que tive o estalo do que queria fazer na vida”.

A escolha que mudou o rumo da carreira
No último ano da graduação, Paulo foi aprovado em primeiro lugar em um concurso público para engenheiro civil, mas a data dos exames admissionais era a mesma da seleção para o mestrado na UEMS. “Não era uma escolha simples. De um lado, estava a estabilidade profissional. Do outro, a oportunidade de seguir na pesquisa, área pela qual eu me apaixonei. Fui conversar com meu pai e ele me disse para fazer aquilo de que eu gostava. E eu gostava da pesquisa.”

Assim, ele optou pelo mestrado em Agronomia na própria UEMS, concluído em apenas um ano. Na sequência, ingressou no doutorado na Universidade Federal de Viçosa (UFV), uma das principais referências do país, consolidando sua formação em Agronomia com foco em genética e melhoramento vegetal, especialidade dedicada à seleção de plantas com características superiores, como maior produtividade e tolerância a condições ambientais adversas.

Ciência construída em conjunto
Em 2017, antes mesmo de concluir o doutorado, o pesquisador passou em um concurso da UFMS e assumiu uma vaga como professor no campus de Chapadão do Sul, que era novo. A ida a Chapadão do Sul o levou a acelerar o doutorado, finalizado em apenas um ano e oito meses, para que ele pudesse também assumir um posto como docente no programa de pós-graduação em Agronomia, que buscava se consolidar no cenário nacional. Foi naquele contexto que surgiu uma das marcas de sua trajetória profissional: a aposta na pesquisa colaborativa.

A estratégia nasceu da percepção de que os desafios enfrentados pela agricultura e pela própria universidade exigiam a integração de diferentes competências. Além disso, para competir por recursos de pesquisa em um cenário nacional dominado por instituições mais antigas e com estruturas consolidadas, seria necessário unir esforços. “Percebemos que não conseguiríamos resolver grandes problemas trabalhando de forma isolada”.

Assim, Paulo passou a aproximar áreas tradicionalmente separadas. Sua experiência em genética e melhoramento vegetal encontrou pontos de convergência com o trabalho do professor Fábio Baio, referência em agricultura de precisão, e do professor Cid Naudi Silva Campos, da fisiologia vegetal, por exemplo. A união dessas especialidades deu origem a uma linha de pesquisa capaz de integrar agricultura digital, drones, sensores, inteligência artificial e melhoramento genético para estudar a resposta das plantas aos estresses hídrico e térmico. “Além disso, o modelo colaborativo que adotamos passou a orientar a formação dos estudantes. Em vez de desenvolver projetos restritos a uma única área, nossos alunos são incentivados a construir pesquisas multidisciplinares e conectadas a problemas reais do setor produtivo”, explica o professor.

O trabalho colaborativo também contribuiu para fortalecer o Programa de Pós-Graduação em Agronomia da UFMS. Quando Paulo chegou a Chapadão do Sul, o curso possuía conceito 3 na avaliação da Capes. Nos anos seguintes, a ampliação da produção científica, a conquista de novos financiamentos e a formação de redes de pesquisa permitiram sua evolução para o conceito 4. Esse avanço abriu caminho para a criação do doutorado em Agronomia, aprovado pela Capes em 2022 e implantado pela UFMS em 2023, um marco que o professor considera uma das maiores conquistas de sua carreira. Recentemente, o curso de pós-graduação em agronomia, sob sua liderança, alcançou o conceito 5 na avaliação da CAPES.

A trajetória também guarda uma coincidência rara. Em 2024, a pesquisadora Larissa Pereira Ribeiro Teodoro, professora no mesmo campus da UFMS e esposa de Paulo, recebeu o Prêmio Fundação Bunge por sua contribuição científica à agricultura brasileira. Hoje, os dois integram uma rede de pesquisadores que atua na formação de novos cientistas e no fortalecimento da pesquisa agropecuária no interior do país.

Ciência, educação e impacto coletivo
Filho de uma família que apostou na educação como instrumento de transformação, o Paulo acredita que sua própria trajetória é prova desse potencial. “A educação muda a vida das pessoas”, afirma.

O professor vê o reconhecimento do Prêmio Fundação Bunge como resultado de um esforço coletivo de pesquisadores, estudantes e parceiros que compartilham o objetivo de desenvolver soluções para uma agricultura mais produtiva, sustentável e preparada para enfrentar as mudanças climáticas. “Por mais que eu esteja aqui falando, existe uma série de pessoas trabalhando junto comigo. A ciência só consegue gerar impacto quando é construída coletivamente. Nós não vamos resolver grandes problemas de forma isolada. A agricultura precisa de pessoas de diferentes áreas trabalhando juntas”, finaliza.

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