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Mudança é uma escolha e exige coragem

Publicado em 03/08/10 às 16h45 envie a um amigoenvie para um amigo

Por Cláudia Calais

Os institutos e fundações responsáveis pelo direcionamento de grande parte do investimento social privado no Brasil, assim como governos, empresas e sociedade civil, precisam ficar atentos a uma nova demanda para os seus investimentos: os eventos climáticos extremos. Não considerar as ações da natureza e seus impactos, principalmente nos grandes centros urbanos, pode ser um equívoco no qual não podemos incorrer. Porém, o foco da reflexão sobre este tema não pode ser o de culpar a natureza pelas mazelas que temos acompanhado ultimamente nos noticiários, e sim a nossa falta de comprometimento em propor ações responsáveis e focadas no que convencionamos chamar de novo ciclo de desenvolvimento, que pressupõe ações economicamente viáveis, socialmente justas, ecologicamente corretas e culturalmente aceitas.

A tragédia que, comovidos, acompanhamos nos morros do Rio de Janeiro não é diferente da registrada no início deste ano na região de Angra dos Reis (RJ) ou da que acompanhamos no final de 2008 no Vale do Itajaí (SC). Culpar a natureza por essas mortes é um crime, pois essa justificativa encobre nossa omissão e nossa falta de responsabilidade na hora de definir sobre os investimentos, sejam eles públicos ou privados, de pessoa física ou pessoa jurídica.

Os fatos que temos acompanhado nos noticiários têm de dar um novo sentido à questão da responsabilidade pelas nossas escolhas e decisões. E, nesse processo de definição de investimento, alguns entendimentos são fundamentais. O primeiro deles é sensibilidade para entender que estamos lidando com gente, independente da classe social a que pertença. Temos de quebrar o paradigma de que, principalmente, para os pobres e necessitados, qualquer solução serve. Não serve! Sinto que, em algum momento, perdemos a conexão com a nossa condição de seres humanos. Existe um elo perdido que precisamos recuperar.

O segundo é a valorização do conhecimento. Academia e poder público, pesquisa e iniciativa privada não podem estar dissociados. Os saberes que produzimos dentro das nossas universidades e institutos de pesquisa têm de caminhar lado a lado com as nossas práticas do dia a dia. Se os alertas feitos pelos geólogos da FURB - Universidade de Blumenau há 20 anos tivessem sido ouvidos pelas autoridades do Vale do Itajaí, a tragédia de 2008 poderia ter sido evitada, pois os morros ocupados de maneira desordenada pela população já tinham sido apontados pelos geólogos como áreas de risco.

O terceiro entendimento é o nosso compromisso com o que convencionamos chamar de novo ciclo de desenvolvimento. As soluções que levamos às nossas comunidades, empresas e  cidades têm de apresentar um compromisso com a sustentabilidade, têm de deixar de ser discurso e passar a ser prática. É necessário sair da zona de conforto. Geralmente, os princípios sustentáveis são trabalhados depois de satisfeitos todos os interesses dos envolvidos. O desafio que se apresenta é o convite à reflexão e à mudança antes dessa linha de satisfação. A nossa falta de formação em conceitos socioambientais consistentes não pode justificar a nossa omissão frente ao que estamos acompanhando. Também não podemos delegar às gerações futuras a responsabilidade pela busca dessas soluções.

O quarto é o compromisso com o desenvolvimento e o envolvimento local. As comunidades locais não podem ser apartadas das decisões sobre seus desafios. Até porque as soluções passam por elas. Mas essa constatação tem de deixar de ser um clichê e virar uma verdade absoluta. Ações inovadoras só chegarão por meio do diálogo e pelo envolvimento da sociedade. As mudanças estruturais não chegarão de helicóptero, como grande parte da ajuda encaminhada pelos brasileiros às vítimas das tragédias. Elas virão da sociedade. Essa demanda é nossa. Não podemos aceitar qualquer coisa do poder público, da iniciativa privada ou de quem quer que seja.

E nós, que de alguma forma, seja em que instância for, temos o poder de decisão sobre esses investimentos, não podemos nos omitir. Tem de ser premissa nossa o compromisso com as pessoas. Temos de propor ações focadas nesse novo ciclo de desenvolvimento, assegurando a valorização do saber e o envolvimento local na busca das soluções para os nossos desafios. Esse “novo” tem de ser construído a partir do referencial das pessoas para que faça sentido para a sociedade. Também é muito importante que essas ações inovadoras não sejam encaradas como doutrina, regra ou religião, mas sim como um convite a pensar diferente.

Propor o novo em situações de caos, como a vivida atualmente pelo Rio de Janeiro, não é fácil, pois as necessidades são urgentes. O problema é que, para atender a mandatos curtos, de quatro anos, ou sanar grandes catástrofes, as soluções apresentadas são tão frágeis como as que ocasionaram a tragédia. Mudanças estruturais sérias são uma escolha e exigem coragem. E precisamos fazer essa escolha e ter essa coragem. Não existe mágica, existe responsabilidade, compromisso e diálogo. A mudança precisa começar.

 

Cláudia Buzzette Calais é gerente de Responsabilidade Social

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