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Artes Circenses: uma manifestação popular que resiste ao tempo

Publicado em 18/08/14 às 09h00 envie a um amigoenvie para um amigo

Por Maria Bonomi

Parte do imaginário coletivo e da cultura popular, o circo é uma expressão artística que sobreviveu a todas as revoluções culturais, políticas e sociais a que a humanidade passou. No Brasil, onde originalmente as apresentações eram feitas nas periferias das grandes cidades e tinham seus shows voltados para as classes populares, o circo alcançou o status de bem do patrimônio cultural e hoje existem cerca de 180 circos itinerantes em todo o país, segundo levantamento da Associação Brasileira de Circo - Abracirco.
O número é pequeno, se considerarmos que, ainda hoje, em muitos municípios do interior do país o acesso a linguagens artísticas do teatro, dança, artes visuais e performances só chega por meio do circo. Dados de 2010 do Ministério da Cultura revelam que apenas 21,2% das cidades brasileiras possuem teatros e, desse total, 62% ficam nas regiões sul e sudeste. O estado inteiro do Tocantins, por exemplo, possui apenas um teatro. Portanto, o circo também tem um papel importante como disseminador de cultura.
De sua origem, há pelo menos 4.000 anos, quando as manifestações eram baseadas em apresentações de artistas anônimos, até os tempos atuais, a arte circense precisou se reinventar diversas vezes. Os primeiros espaços de agrupamento de artistas tiveram origem ainda no Império Romano, por volta de VI a.C, nos chamados Circus, arenas de demonstrações esportivas e apresentações artísticas. A palavra de origem latina “Circus”, relacionado com o grego “kyklos” - círculo ou eventos que se repetem regularmente – é que deu origem ao nosso “circo”.
Com o fim do Império Romano, esses artistas passaram a improvisar suas apresentações em praças públicas, feiras e entradas de igrejas. Assim surgiram os primeiro saltimbancos, que no século XVIII viajavam de cidade em cidade, especialmente na Inglaterra, França e Espanha, para apresentar seus números. Em Londres, 1770, foi inaugurado, por um oficial inglês da Cavalaria Britânica, o primeiro circo europeu, o Astley's Amphitheatre, com picadeiro, uma espécie de arquibancada, onde eram apresentados espetáculos equestres, com rigor e estruturas militares, mas com o tempo, saltimbancos, equilibristas, saltadores e palhaços passaram a fazer parte do show.
Se por um lado, a tradição itinerante do circo possibilita levar o espetáculo ao público, até mesmo nos rincões do país, por outro enfrenta desafios enormes para manter essa tradição. O primeiro deles é a falta de espaço público para montagem da lona, pois com a especulação imobiliária, que atingiu não só as grandes capitais, tornou-se cada vez mais difícil encontrar grandes áreas públicas para montagem do circo, além da falta de legislação que assegure a instalação e funcionamentos destes circos nos mais de cinco mil municípios brasileiros.
Também desafiadora é a disputa por espaços simbólicos, de reconhecimento e incentivo dentro dos novos conceitos de sociedade e mercado cultural. É muito difícil adequar projetos circenses nas leis de incentivo à cultura do governo, pelas barreiras das realidades locais ou mesmo pela natureza da manifestação artística que, preservando as características tradicionais, não encontram tanto espaço na mídia e no mercado, o que se torna uma barreira para encontrar empresas dispostas a investir. 
Mas apesar do cenário, os desafios ajudam a manter a tradição. Nos últimos anos, depois do fechamento de diversos circos de grandes famílias com tradição circense, a manifestação ganhou novas roupagens numa tentativa de manter viva a atividade, com a criação de escolas, em total consonância com a o circo tradicional, que vem estimulando a prática entre os jovens, formando profissionais e estimulando um novo espaço de trabalho para os profissionais que não têm mais condições de continuar viajando.
Além disso, o circo dialoga com os conceitos de economia criativa, novo modelo de gestão e negócio baseado no bem intelectual e no conhecimento, alinhados com os conceitos de inovação, diversidade, sustentabilidade e criatividade.
A Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura, criada em 2012 para conduzir a formulação e implantação de políticas públicas e o fomento aos profissionais e aos pequenos empreendimentos criativos brasileiros, tem expectativa de crescimento da participação desses pequenos negócios no montante movimentado pelo setor criativo que, só em 2010, foi um montante de R$ 95,157 bilhões, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Artes Circenses é tema da 59ª Edição do Prêmio Fundação Bunge, criado para incentivar as artes, ciências e letras, homenagear o poder transformador dos indivíduos na sociedade e estimular novos talentos.

* Maria Bonomi é artista plástica e membro do Conselho Administrativo da Fundação Bunge.

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