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Prêmio Fundação Bunge 2017

Marcelo Loureiro Garcia

Os desafios globais da sustentabilidade do agronegócio brasileiro

“Se toda vinhaça gerada em um ano no Brasil fosse transformada em energia, isso representaria 15% da capacidade de produção anual da hidroelétrica Itaipu”

Marcelo Loureiro Garcia sabia que seria professor antes mesmo de saber exatamente do quê. Desde muito cedo admirava a carreira docente do pai, engenheiro e professor da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, onde Marcelo nasceu e vivia com a família. Em 1999, mudou-se para São Carlos para cursar Engenharia Civil no campus da USP daquela cidade. Embora tivesse bom desempenho em disciplinas voltadas para as áreas de estrutura e construção, no segundo ano de faculdade descobriu a área de Engenharia Sanitária. E começou a vislumbrar o seu caminho no universo acadêmico.

Em seu trabalho de conclusão de curso da graduação, em 2003, e na dissertação de mestrado desenvolvida na mesma instituição, em 2004, Marcelo dedicou-se a estudar tecnologias de tratamento de esgoto sanitário por digestão anaeróbia – processo biotecnológico em que microorganismos convertem matéria orgânica em biogás. Quatro anos depois, concluiria um doutorado nos Estados Unidos, pela Washington University in St. Louis, financiado pelo Departamento de Agricultura americano, em que aplicava a mesma tecnologia a resíduos animais (suíno e bovino) de fazendas do interior do estado do Missouri. Na interseção entre Engenharia, Ciências Ambientais e Agrárias, o caminho profissional de Marcelo foi ficando mais nítido. O jovem pesquisador enxergou uma oportunidade.

“Quando comecei a estudar os processos anaeróbios, a ênfase dessa linha de pesquisa estava na conservação ambiental, já que o tratamento permite o reaproveitamento de água (água de reuso) e previne a contaminação de solos e recursos hídricos”, diz Marcelo. Cerca de uma década depois, no entanto, a questão energética passou a se impor com igual urgência: o mundo precisa de matrizes energéticas mais limpas, sem depender tanto de fontes não renováveis, como combustíveis fósseis. Nesse cenário, o biogás resultante de tecnologias como as estudadas por Marcelo ganha valor estratégico. Metano pode tornar-se energia. Resíduo pode tornar-se matéria-prima.

De volta ao Brasil, Marcelo acrescentaria um pós-doutorado a seu currículo, em rápida passagem pela USP de São Carlos, no mesmo grupo de pesquisa do qual foi egresso de graduação e mestrado (e com o qual trabalha em colaboração até hoje). E, logo na sequência, em 2009, é contratado como professor doutor pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), no campus de Rio Claro, onde obteve sua livre-docência em 2015 e onde hoje atua no curso de graduação em Engenharia Ambiental e no programa de pós-graduação em Geociências e Meio Ambiente.

Suas pesquisas, desde então, têm se voltado para uma das indústrias mais importantes para a matriz energética e a economia brasileiras: a sucroalcooleira. Marcelo acredita que é possível torná-la ainda mais rentável e eficiente.

“A produtividade no agronegócio é comumente atrelada ao seguinte raciocínio: produzir mais com a mesma quantidade de recurso ou produzir uma quantidade fixa de produto com menos matéria-prima”, diz o pesquisador. É uma abordagem que faz sentido. No entanto, matéria-prima e produto final não são os únicos elementos de uma cadeia produtiva. Toda a carreira de Marcelo o fez enxergar, justamente, o valor agregado de resíduos e subprodutos. E, no caso da produção de açúcar e etanol, o resíduo é a vinhaça.

“Se toda vinhaça gerada em um ano no Brasil fosse submetida à digestão anaeróbia e transformada em energia, isso representaria 15% da capacidade de produção anual da hidroelétrica Itaipu”, diz Marcelo.

Segundo Marcelo, a vinhaça já é utilizada largamente nos campos brasileiros, sendo aplicada de volta ao solo por meio da fertirrigação. O efluente contém água e nutrientes que podem ser reaproveitados, se aplicado sob condições controladas e de acordo com critérios técnicos de regulação. Contudo, há limites para a fertirrigação da vinhaça, que, pode, em grande escala, acarretar danos ambientais, como a contaminação da água subterrânea ou a salinização do solo. “Para cada litro de etanol produzido, resultam 13 litros de vinhaça. À medida que a indústria crescer, mais será produzido. Uma hora, o solo satura”. Daí porque a recomendação de Marcelo e sua equipe não é substituir a fertirrigação, mas complementá-la com procedimentos de biodigestão anaeróbia para converter o que é potencialmente danoso em energia. “Temos tecnologia para isso”.

Além de afirmar que as análises técnica e ambiental já garantem o sucesso da tecnologia, Marcelo vê com bons olhos as análises preliminares acerca da viabilidade econômica do processo. “Os fatores que afetam a análise econômica são mais sensíveis, oscilam mais, como, por exemplo, os preços do mercado do açúcar e do etanol”, diz. “No entanto, os custos da implantação, operação e manutenção não são expressivos em relação ao benefício econômico que se pode obter com a comercialização da energia elétrica”. Reaplicada a energia na própria cultura da cana ou vendida a redes externas, argumenta Marcelo, o tratamento da vinhaça em biogás representaria um potencial que o País não pode deixar inexplorado.

É a esse potencial que Marcelo tem dedicado a maior parte de sua vida acadêmica, que já contabiliza dois livros de sua autoria, um capítulo de livro, 29 artigos publicados, três prêmios de pesquisa, além da orientação de novos pesquisadores e do exercício da docência que, desde muito cedo, ele aprendeu a admirar.

Outros contemplados:

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