Prêmio 2017 - Prêmio Fundação Bunge - Projetos - Fundação Bunge
Texto

Prêmio Fundação Bunge 2017

Alysson Paolinelli

Os desafios globais da sustentabilidade do agronegócio brasileiro

“Com a Agricultura Tropical, não apenas passamos a produzir mais como aprendemos a recuperar nossos recursos. E o mundo hoje está indo em nossa direção”

Seria impossível creditar a um único indivíduo a criação de um órgão de tal relevância para as Ciências Agrárias no Brasil quanto a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Mas há quem o faça em relação ao mineiro Alysson Paolinelli, 81 anos. Ele mesmo não o faz, preferindo atribuir-se papel apenas instrumental a serviço de um governo cuja visão de desenvolvimento apregoava fortes investimentos em pesquisa e tecnologia no campo.

Fato é, contudo, que tal visão acompanha Paolinelli ao longo de toda sua trajetória, desde a infância em Bambuí, a 270 km de Belo Horizonte. Nascido em 10 de julho de 1936, filho único de um engenheiro agrônomo e uma normalista, Paolinelli herdaria do pai a aptidão científica e política. Como prefeito de Bambuí, Antônio Paolinelli de Carvalho foi responsável pela instalação de um Posto Agropecuário do Ministério da Agricultura na cidade, no fim dos anos 1940, que fomentou a atividade agrícola da região por meio de cursos técnicos, empréstimos de maquinário e distribuição de sementes. Fez mais: abdicou do cargo de prefeito para se tornar o primeiro diretor do Posto, que mais tarde seria Escola Agrícola (nível médio profissionalizante) e, hoje, é campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais.

O orgulho sentido pelo adolescente Alysson Paolinelli nota-se até hoje, quando fala do pai. “Eu ouvia os conselhos que ele dava aos produtores e fui formando a convicção de que o Brasil é um país de muitos recursos e que, com pesquisa, a gente prospera”, diz. Quando comunicou à família que decidira pela carreira da Agronomia, no entanto, o pai o fez passar por um teste. Deveria usar as férias do ensino científico, que cursava em Lavras (MG), para administrar a fazenda de um tio, em Bambuí. Fazia os 200 km entre as duas cidades de trem, para “botar a mão na massa”, “aprender a diferenciar uma laranjeira de um pé de couve”, lembra, bem-humorado. A prática só consolidou sua certeza e, em 1955, Alysson ingressava na Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL), hoje Universidade Federal de Lavras (UFLA).

A ESAL representava, então, a vanguarda das Ciências Agrárias no Brasil, junto à Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), em Piracicaba (SP), e à ESAV (Escola Superior de Agricultura e Veterinária), em Viçosa (MG), hoje universidade federal (UFV). Fundada por uma missão presbiteriana americana, Lavras trazia daquele país o modelo de ensino prático em que atividades do campo se aprendiam, por óbvio, no campo, em terras públicas concedidas a universidades como investimento estratégico de Estado (os chamados land-grant colleges). “Até então o Ensino Superior no Brasil era inspirado no modelo francês, da 'torre de marfim' dissociada da realidade”, diz Paolinelli. “Pelo modelo americano, a universidade participava da comunidade, com ensino, pesquisa e extensão, para atender às demandas reais dos agricultores e pecuaristas”.

Não demoraria para o próprio aluno estar à frente dessa bandeira, como professor da instituição. Ao fim da graduação – durante a qual deu seus primeiros passos na política, como presidente do centro acadêmico –, antes mesmo de se formar, Paolinelli receberia o convite do diretor da ESAL para juntar-se ao corpo docente, lecionando a disciplina de Hidráulica, Irrigação e Drenagem. Sete anos depois, em 1966, ascenderia à vice-diretoria da Escola e, no ano seguinte, tornar-se-ia diretor.

Durante sua gestão, tornou-se nome nacional e internacionalmente conhecido, presidindo por dois anos a Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior (Abeas), visitando universidades e centros de pesquisa nos Estados Unidos a convite do governo americano e participando de congressos e conferências pela América Latina. O mais importante: sob seu comando, a ESAL triplicaria o número de alunos e professores. A eficácia não passou despercebida pelo então governador mineiro, Rondon Pacheco, que o convocou para a Secretaria Estadual de Agricultura em 1971.

“Ele me disse: 'Quero que você faça com a Secretaria o mesmo que fez com a Escola de Lavras'”. Para isso, a primeira medida foi integrar os 52 órgãos que atuavam no setor agrícola, em Minas Gerais, e criar o Sistema Operacional da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SOAPA), sob o comando do secretário. A segunda tarefa foi recompor o órgão de pesquisa estadual fundado em 1930, o extinto Instituto Agronômico de Minas Gerais. Era a imagem da burocracia ineficaz. “Para recriar aquele 'mastodonte', contratamos 60 profissionais de qualidade, fizemos uma autarquia enxuta, com autonomia administrativa, financeira e técnica. O rendimento foi fabuloso”.

A revitalização do Instituto fez parte de um trabalho maior de ampliar o papel da Ciência no planejamento econômico e social mineiro. Em 1971, a equipe de Paolinelli lançava o Programa Integrado de Pesquisas Agropecuárias do Estado de Minas Gerais (Pipaemg), que, mais tarde, resultaria na criação da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). Quando representantes do governo federal visitaram o estado, Paolinelli lembra que “se assustaram com o que viram: 352 projetos de pesquisa em andamento”. E, então, foi convocado novamente: “Junte seu pessoal e vamos para Brasília”. Em 1974, Alysson Paolinelli era nomeado ministro da Agricultura do governo Geisel. E do modelo estruturado por ele para Minas, nascia a Embrapa.

Não foi fácil. “Precisávamos de mais de 1.000 pesquisadores, abrimos um concurso que não poderia ser mais objetivo nos critérios: tinha de ter pós-graduação, dedicação integral, experiência prática”, diz o ministro. “Tínhamos expectativa de conseguir uns 500. Apareceram 53”. Se faltavam recursos humanos no País, contudo, não faltava motivação para mudar o quadro. Com financiamento do Banco Mundial, o Ministério mandou mais de 1.500 pesquisadores brasileiros para treinamento “nos melhores centros de Ciência do mundo”. A Embrapa deslanchou, e com ela a agricultura brasileira tornava-se agronegócio, o País tornava-se potência.

“O Cerrado brasileiro antes era terra apenas de fazer distância”, conta Paolinelli, que em sua gestão criou 16 unidades da Embrapa, incluindo a Embrapa Cerrados. “De repente, um país que não era capaz de produzir para si próprio começa a interpretar, a conhecer e analisar seus biomas e recursos naturais”. Para o ministro, a Revolução Verde empreendida no Brasil nos anos 1970 foi “exemplo do que pode fazer o conhecimento”. Em vez de importar técnicas de climas temperados, o Brasil passou a dominar uma Agricultura Tropical que, além de mais produtiva, é mais sustentável. “Não apenas passamos a produzir mais, como aprendemos a recuperar nossos recursos. E o mundo hoje está indo em nossa direção”.

Talvez a mais vultosa, a Embrapa não foi a única conquista da gestão de Paolinelli no Ministério da Agricultura, sendo de relevo também sua participação na criação do Programa Nacional do Álcool (Proalcool), em 1975, solução brasileira para a alta dos preços do petróleo na década de 1970.

Deixando o Ministério em 1979, sua carreira contaria ainda com mais duas gestões como Secretário de Agricultura de Minas Gerais, a presidência da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), além de centenas de medalhas e prêmios, como o World Food Prize, por indicação do Nobel da Paz Norman Borlaug; a Ordem do Mérito da Sacred Treasure pelo Imperador Hirohito, do Japão; a Ordem do Mérito da Grã-Bretanha pela Rainha Elisabeth; a Ordem do Mérito Agrícola da França; e, este ano, o Prêmio Fundação Bunge.

Atualmente, preside a Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) e participa do Instituto Fórum do Futuro, que define como “entidade sem viés político-partidário” que reúne pesquisadores de várias partes do mundo para estudar e trocar conhecimento sobre biomas tropicais. “Uma turma de velhinhos”, nas palavras bem-humoradas do próprio Paolinelli, que não cansam de pensar como as Ciências Agrárias podem contribuir com a sustentabilidade do planeta.

Outros contemplados:

Desafios globais da sustentabilidade do agronegócio brasileiro

Transformações do Direito brasileiro e seus impactos na teoria geral do Direito