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Prêmio Fundação Bunge 2016

Sebastião Valadares Filho

Nutrição e Alimentação Animal – Categoria Vida e Obra

“A alimentação animal é onde estão os maiores custos da produção de gado. Por outro lado, é nela onde estão as melhores possibilidades de diminuir os gastos e aumentar a eficiência.”

Para Sebastião de Campos Valadares Filho, não foi muito difícil escolher o que iria fazer, quando crescesse. Filho e neto de fazendeiros, ele nasceu em Felixlândia, município encrustado no centro do Estado de Minas Gerais, na região do Curvelo, que ainda hoje guarda os ares de cidade de interior, cercada de natureza, plantações e pastagens. Na propriedade rural da família, ele começou a descobrir aquele que seria o tema do seu trabalho e missão de vida. Foi lá que ele aprendeu cedo a lidar com a criação de gado, conhecer seus segredos, suas dificuldades. Quando chegou a idade, seguiu os passos que os irmãos mais velhos já haviam seguido. “Meu pai era fazendeiro, trazia aquela experiência da família, do dia a dia da atividade rural. Meus irmãos mais velhos já tinham ido para a faculdade, três em cursos na área. Para mim, era um caminho natural, também", lembra Sebastião.

Essa parte da história começou na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde ele chegou em 1974 para iniciar o curso de Zootecnia. Em 1977, graduado, voltou a Felixlândia, para colocar em prática o que havia aprendido. Durante um ano, dedicou-se a implementar um projeto na fazenda da família. Mas a Academia tinha entrado na corrente sanguínea. Veio o mestrado, desta vez em Belo Horizonte, na UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais.

Em 1981, Sebastião voltou à UFV. Na decisão, pesou não apenas a formação acadêmica, mas uma razão afetiva. “Eu casei, e minha esposa trabalhava em Viçosa. Vim para a UFV fazer meu doutorado na área que até hoje é a minha paixão: a Nutrição e Alimentação Animal”, conta. O título de doutor veio em 1984. Depois, vieram as dificuldades. “Em 1985, o Brasil quebrou, a economia estava complicada. Tive que me arrumar com uma bolsa de pós-doutorado, já casado e com 2 filhos”. Com persistência, as coisas foram melhorando. Em 1988, ele passou no concurso e em 1989 foi contratado como professor da universidade e do curso pelo qual se graduou.

“Eu diria que um estágio de pós-doutorado no exterior é uma experiência que todos deveriam ter. Além de adquirir novos conhecimentos, novas técnicas, você conhece novas culturas, novas realidades. Para mim, foi fundamental”. A experiência que Sebastião narra foi o estágio de pós-doutorado no U.S. Dairy Forage Research Center - USDFRC, em Madison, nos Estados Unidos, em 1998. Na volta ao Brasil, outra missão: em 1999, assumiu a chefia do Departamento de Zootecnia da UFV, cargo que ocuparia por quatro anos e ao qual voltaria para mais quatro, em 2009.

Apesar da experiência administrativa bem-sucedida, o que move Sebastião é a pesquisa e a produção acadêmica. Essa dedicação se expressa em números significativos. Até hoje, ele já coordenou 74 projetos de pesquisa, publicou 552 artigos, participou de mais de 60 livros publicados, orientou ou coorientou 153 dissertações de mestrado e 95 teses de doutorado. Entre 2003 e 2006, participou do Comitê Assessor do CNPq na área de Veterinária e Zootecnia, o qual coordenou por dois anos (2005 e 2006), e foi membro da câmara de Zootecnia e Veterinária da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) entre 2006 e 2010, coordenando-a no último ano de participação.

Atualmente, Sebastião é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Ciência Animal (INCT-CA), instituído em 2009 e sediado na UFV, com o objetivo de desenvolver novas metodologias e produzir informação biológica para apoiar atividades científicas e tecnológicas inovadoras. O instituto busca melhorar os atuais resultados de eficiência de produção, diminuir as perdas e impactos ambientais e maximizar o potencial produtivo em todas as áreas da ciência animal no Brasil. “É um projeto que trabalha em rede e reunia dez instituições de seis estados brasileiros. Isso amplia a sua eficiência e o seu alcance”, explica. E a nova proposta, aprovada recentemente, já reúne 22 Instituições distribuídas em todas as regiões do país.

A principal linha de pesquisa de Sebastião e sua grande fonte de orgulho é o BR-CORTE, sistema que formula dietas para o gado, estima desempenho dos animais e calcula a exigência do animal em cada fase da produção. Através de outro sistema, o CQBAL, a composição nutricional de cada constituinte da ração é delimitada. Ambos foram desenvolvidos pela equipe coordenada pelo professor Sebastião, no laboratório de Nutrição Animal do departamento de Zootecnia da UFV, e contêm milhares de dados sobre cada alimento consumido na dieta de bovinos em todas as regiões do País, levando em consideração as diferentes realidades locais. Disponível gratuitamente na web, o BR-CORTE é utilizado por produtores e pesquisadores de todo o Brasil. “A alimentação animal é a base do sistema de produção. É onde estão os maiores custos, aproximadamente 70% do que é investido na criação de gado. Quando você desenvolve métodos de tornar essa alimentação mais eficiente, você cria um ambiente favorável, diminuindo custos e a idade de abate”, ressalta o pesquisador.

E Felixlândia? O pesquisador nunca cortou os laços. Regularmente – não com a frequência que ele gostaria –, Sebastião de Campos Valadares Filho retorna à terra natal, onde mantém uma pequena propriedade rural. “Lá eu aplico um pouco da tecnologia que conheci e desenvolvi ao longo da minha vida. Mas lá a meta é diferente. Lá o objetivo é não ter prejuízo”, brinca o professor. É justo. Afinal, não faltam grandes metas atingidas na sua lista de realizações.