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Prêmio Fundação Bunge 2016

José Vicente Caixeta Filho

Infraestrutura de Transportes – Categoria Vida e Obra

“Às vezes, não temos noção de quantas pessoas estão observando o nosso trabalho. O Prêmio Fundação Bunge evidencia isso: que o seu trabalho está sendo observado e vai ser utilizado para uma boa finalidade.”

Em 2011, José Vicente Caixeta Filho tornou-se o 33º a ocupar o cargo de diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba (SP). Nos 110 anos de existência da Esalq até então, contavam-se nos dedos de uma mão os ex-diretores que, como ele, não haviam seguido carreira acadêmica em Engenharia Agronômica ou em outra área essencialmente ligada à Agricultura; o último deles – o engenheiro civil e professor de Física Antonio de Pádua Dias – havia dirigido a escola quase 90 anos antes.

Na definição do próprio Caixeta, cujo mandato se encerrou em 2016, sua escolha como diretor da instituição teve, assim, algo de “emblemático”, já que os desafios colocados para a Agricultura no século XXI são de natureza cada vez mais transdisciplinar. “Em um levantamento recente, entre quase 250 professores da Esalq, existem pelo menos 30 profissões distintas”, diz.

Já não surpreendia, portanto, que um engenheiro civil com décadas de ensino e pesquisa dedicados à Logística e à Infraestrutura de Transportes liderasse um dos mais prestigiosos centros de Ciências Agrárias do Brasil e do mundo. Principalmente porque, dada a importância do agronegócio para a economia brasileira, é na ineficiência logística que reside um dos maiores obstáculos ao nosso desenvolvimento. Se o Brasil já sabe plantar como potência agrícola mundial, ainda temos muito o que evoluir na movimentação e no armazenamento de cargas. E Caixeta é um dos que mais têm feito para mudar esse quadro.

Nascido em Piracicaba, em 1962, filho de um casal de professores, Caixeta estudou em escola pública até chamar a atenção dos dirigentes do Colégio Luiz de Queiroz (CLQ), escola particular de excelência com foco na preparação para o ingresso no Ensino Superior. Como bolsista do CLQ durante o Ensino Médio, destacou-se por ser bom aluno e por ter herdado dos pais a aptidão para a docência. “Durante o colegial, era comum minha casa cheia de gente, porque eu dava aula para a moçada. Sempre tive uma didática razoável”, diz. Prestou vestibular nos três anos que estudou no CLQ, foi aprovado nas três vezes: nas duas primeiras, por teste, para o curso de Engenharia Florestal da Esalq e para a Escola de Engenharia de São Carlos, da USP, e na terceira, para valer, para a Escola Politécnica da USP. Aos 17 anos, foi morar em São Paulo.

Graduou-se engenheiro civil em 1984, após cinco árduos anos: “A Poli é muito exigente, mas sou grato pela forma como me testou. Resolvi tanto problema complicado durante a universidade que o mercado de trabalho parecia fácil”.

Em 1987, obteve bolsa da Fundação Rotária para fazer mestrado em Economia pela Universidade de New England, na Austrália. Como o Brasil, a Austrália sempre foi grande exportadora de grãos, principalmente de trigo, e, à época, uma comissão técnica do governo australiano buscava avaliar a eficiência do segmento. Entre as questões levantadas pela comissão, um dilema logístico se mostrava central: pela legislação daquele país, o trigo produzido num estado só podia ser exportado pelo mesmo estado – ainda que o porto de um estado vizinho fosse mais próximo. Em sua dissertação de mestrado, utilizada pela comissão, Caixeta desenvolveu modelos matemáticos para mostrar exatamente o quanto os fluxos represados pelas fronteiras estaduais significavam de perdas para a economia australiana.

O trabalho lhe rendeu reconhecimento e convite para se tornar professor na Austrália. Não por falta de vontade, ele declinou. “Eu até aceitaria, mas o pessoal daqui não”, diz, referindo-se à família e a sua então namorada, hoje esposa, que havia ficado no Brasil. Mas a agradável experiência da vida universitária numa cidade com menos de 20 mil habitantes lhe trouxera duas certezas: perseguiria a carreira acadêmica e não voltaria a morar em São Paulo. Após considerar cidades como Fortaleza ou Curitiba, reencontrou uma ex-colega do CLQ que havia se tornado professora da Esalq e lhe informou sobre um concurso para professor do Departamento de Economia e Sociologia Rural (hoje, Economia, Administração e Sociologia). E, assim, em 1989, José Vicente Caixeta Filho retornava à sua cidade natal.

Na Esalq, começou dando aulas de Economia, mas aos poucos se aproximou, como professor e pesquisador, do que seria o foco de seu trabalho: a Logística Agroindustrial. Uma área que envolve a coleta de uma infinidade de dados e a criação de modelos matemáticos sofisticados para computar a informação e otimizar os processos de transporte e armazenamento de cargas.

É o que faz o Sistema de Informações de Fretes (Sifreca), idealizado por Caixeta e construído com a ajuda de seus alunos de pós-graduação. Trata-se de um imenso banco de dados que mapeia as cadeias logísticas de todo o Brasil e está disponível para consulta gratuita pela internet e por aplicativos de celular. Como os valores de fretes dependem de um sem número de variáveis – da carga em si, dos pontos de origem e destino, dos modais utilizados (rodovias, hidrovias ou ferrovias), das condições das vias (que, por sua vez, variam em épocas de chuva ou de seca), dos preços dos combustíveis, etc. –, o Sifreca é ferramenta essencial para produtores na negociação com transportadoras que nem sempre tinham a informação mais precisa ou a intenção de vender seu serviço mais barato. “Antes do Sifreca, não existia nenhuma fonte reconhecida, confiável e isenta para esse tipo de informação. Havia muito ‘chute’. Nós reunimos um conjunto de informantes, coletamos umas 10 mil rotas, padronizamos essa informação e montamos uma base de dados disponibilizada para todos”, diz.

O sucesso da metodologia pioneira do Sifreca daria origem ao Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Esalq (Esalq-Log), que também desenvolve projetos para as iniciativas pública e privadas, e consolidaria Caixeta, coordenador do grupo, como referência máxima da área no País. Ele ainda conquistaria o doutorado em Engenharia de Transportes pela USP, em 1993, e um pós-doutoramento na Alemanha, em 1994.

Ao considerar as contribuições do Esalq-Log, Caixeta avalia que, a curto prazo, o grupo funciona como um “observatório da infraestrutura de transportes do País”, útil para identificar os pontos frágeis da logística que demandam investimentos imediatos. “A longo prazo, tenho uma visão estratégica de que o Esalq-Log ajuda a formar pessoas e a atrair talentos importantes para a gestão da Logística no Brasil”.