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Prêmio Fundação Bunge 15

A OPORTUNIDADE DE TRATAR DA ÁGUA EM ANO DE CRISE

Em meio à sua pior crise hídrica em 85 anos, o Sudeste Brasileiro – e o Brasil como um todo, dada aimportância da região para a economia do País – se pergunta, aflito, de onde virá a água para encher os reservatórios e abastecer cidades, indústrias, lavouras e hidrelétricas. É uma pergunta natural. Contudo, quando a atenção de governos, imprensa e população em geral parece se voltar quase exclusivamente para a escassez e a disponibilidade hídrica – onde e como buscar água, como armazenar, como distribuir, etc. – é crítico lembrar de outra questão, indissociável da primeira: como trataremos essa água?

O histórico do saneamento básico no Brasil não nos dá motivos para responder a essa pergunta com otimismo. Mas talvez nos imponha a agir.

Esta foi uma das reflexões que motivaram a Fundação Bunge a eleger, como um dos temas do Prêmio Fundação Bunge 2015, o SANEAMENTO BÁSICO E MANEJO DE ÁGUA.

Como explica o climatologista Carlos Nobre, conselheiro da Fundação e diretor do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (Cemaden/MCTI), “a crise hídrica tornou muito aguda a percepção de nossos déficits históricos de desenvolvimento, e talvez não haja nenhum déficit maior do que o saneamento”.

Os números corroboram a afirmação de Nobre. De acordo com o último Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgotos do Ministério das Cidades (SNIS 2013), 17,5% dos brasileiros ainda não são abastecidos com água tratada em suas casas. Um número que nem parece tão ruim, se comparado com os índices relacionados ao esgoto no País: menos da metade (48,6%) da população é atendida por rede de coleta de esgoto. De todo o esgoto gerado no Brasil, apenas 39% é tratado. E esgoto, tratado ou não, sempre termina voltando para a natureza.

“O saneamento está totalmente inserido no ciclo hidrológico. A água que dilui o esgoto vai para rios, córregos e igarapés”, diz Nobre. Parece óbvio, e é. Mas, em meio aos planos emergenciais de construir represas e transpor rios distantes para enfrentar a seca, corre-se o risco de esquecer que poluir corpos d’água é tão ou mais grave para a disponibilidade hídrica – isso sem falar na saúde pública – quanto parar de chover.

O biólogo e também conselheiro da Fundação Bunge Adalberto Luis Val acrescenta ao discurso do colega, afirmando que o atraso no saneamento básico brasileiro não é apenas uma questão de escala, mas de qualidade dos serviços prestados. “Ainda precisamos avançar muito. As técnicas que temos usado para tratamento de esgoto não resolvem uma série de problemas”, diz Val, lembrando como um dos desafios atuais o descarte inadequado de medicamentos. “O efeito de antibióticos, anticoncepcionais, inibidores de apetite e diversos outros medicamentos descartados contribui para a extinção de um conjunto significativo de microrganismos que têm papel importante na recomposição de corpos d’água degradados.” E não são apenas as espécies minúsculas que estão ameaçadas: “No mundo, temos hoje a extinção de vasto número de anfíbios, de peixes e da própria vegetação do entorno dos corpos d’água, por conta da poluição”, diz o biólogo.

A Fundação Bunge não está sozinha na preocupação em trazer o saneamento básico para o centro do debate sobre água no País. Em novembro de 2014, durante simpósio da Academia Brasileira de Ciências sobre os “Recursos Hídricos na Região Sudeste”, cientistas de diversas áreas – biólogos, climatólogos, físicos nucleares, oceanógrafos, engenheiros agrícolas, civis, hidráulicos, químicos, entre outros – assinaram documento conjunto que enfatizava a preponderância do tema na discussão. A Carta de São Paulo classificou como “fundamental e estratégica” a implementação de projetos de saneamento básico, com recursos públicos destinados “para a subvenção de resultados, e não para a inauguração de obras”.

É uma esperança e um chamado – assim como o Prêmio Fundação Bunge 2015 – para que a crise da água no País se transforme na oportunidade de recuperarmos um atraso de décadas no nosso desenvolvimento.