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Prêmio Fundação Bunge 2015

Marlene Cristina Alves

Ciências Agrárias: Recuperação de Solos Degradados para a Agricultura

“Cada ex-aluno e orientando que consegue se colocar no mercado e atuar bem na área de Recuperação de Solos é fruto de nosso trabalho, de acreditarmos na importância da sustentabilidade.”

Natural de São Carlos (SP), MARLENE CRISTINA ALVES formou-se agrônoma em Areia (PB), trabalhou em Petrolina (PE), tornou-se mestre em Porto Alegre (RS), professora em Ponta Grossa (PR), doutora em Piracicaba (SP) e hoje mora em Ilha Solteira, interior paulista na fronteira com o Mato Grosso do Sul, onde é professora e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) há 26 anos. Dedica-se há 23 anos a pesquisas na área de Recuperação dos Solos.

O que levou Marlene a traçar carreira por tantos lugares – incluindo experiências na Espanha e no Canadá? Da forma como ela conta sua história de vida, uma conjunção de circunstâncias adversas, oportunidades e trabalho duro. Não muito diferente, portanto, do que passou seu pai.

Mecânico de Itatiba (SP), o pai de Marlene “foi desbravando o interior de São Paulo”, mudando de endereço conforme apareciam ofertas de emprego e automóveis e caminhões para consertar. Foi também caminhoneiro, o que o mantinha longe de casa com frequência. Marlene não lembra sua fisionomia. Tinha 5 anos quando ele morreu, deixando a esposa para cuidar de oito filhos, o mais velho com apenas 15.

Venderam o caminhão do pai. A mãe tornou-se empregada doméstica. Os filhos contribuíram: Marlene foi babá aos 9 anos.

A mãe sempre soube, porém, que o caminho para os filhos passava pela educação. “Vocês não nasceram em berço de ouro, têm que ter alguma formação”, dizia.

Mais tarde, já no Ensino Médio, Marlene lembra de visitar um dos irmãos mais velhos, que trabalhava em Piracicaba, na gráfica da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP). E a Esalq, como a muitos outros antes dela, mudou sua vida. “Nasci na cidade, fui criada no asfalto, mas me apaixonei pela questão dos solos.”

Tentou os vestibulares da Esalq e da Unesp de Jaboticabal (SP) à revelia da família, Agronomia não era “profissão de mulher”. Mas, para quem vinha de escola pública, trabalhava de dia e estudava à noite, a concorrência era barreira quase intransponível. No ano seguinte, uma colega de cursinho sugeriu novo plano: tentariam o Nordeste, onde a concorrência era menor. E foi assim que, em 1978, Marlene saiu de casa para fazer a graduação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no campus de Areia.

No interior paraibano, descobriu vocação para a pesquisa. Já no segundo ano de graduação era pesquisadora e, após formar-se, foi bolsista da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em Petrolina.

O mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS a fez dar aulas, e as aulas a levaram à Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o primeiro emprego como docente. Pouco depois, 10 anos após a primeira tentativa frustrada, chegaria enfim à Esalq para o doutorado.

Eram os anos 1980 e, embora o Cerrado houvesse assumido a ponta da agricultura nacional uma década antes, o Sul e o Sudeste do País mantinham-se como referências das Ciências Agrárias. Instituições como a UFRGS, a Esalq ou o Instituto Agronômico de Campinas (SP) representavam patrimônio de mais de um século de pesquisas aplicadas a regiões onde já se haviam cultivado intensivamente – e comprometido intensivamente – os solos brasileiros. Solos que haviam tido alto potencial de produtividade mostravam-se degradados por erosão, compactação e falta de manejo adequado. Mas de onde aparecem os primeiros problemas vêm as primeiras soluções, e foi nesse ambiente pioneiro que Marlene estabeleceu sua carreira acadêmica.

Uma carreira que foi se tornando mais respeitada com o passar dos anos. Além de pós-doutorados na Universidade da Coruña (Espanha), na McGill University (Canadá) e no Eastern Cereal and Oilseed Research Centre (ECORC) do Ministério da Agricultura do Canadá, em 1989 tornou-se parte da equipe da Unesp, no campus de Ilha Solteira. Na instituição, dedica-se a pesquisas que contribuem para definir indicadores de qualidade do solo, avaliar os níveis de degradação e propor soluções tecnológicas, como, por exemplo, a adubação verde (cultivo de plantas que aumentam a fertilidade do solo) e o uso de resíduos da agroindústria.

Com dezenas de artigos publicados, de participações em eventos científicos no Brasil e no exterior, de bancas e orientações de mestrado e doutorado, Marlene tem autoridade para traçar painel crítico do estado dos solos brasileiros. “Infelizmente, ainda existem locais onde se cultiva morro abaixo, onde se faz a queima, onde não se utiliza a classificação de capacidade do uso do solo. A grande maioria das pastagens está degradada. A crise hídrica que vivemos é resultado de degradação, de falta de vegetação para proteger os mananciais.” Isso sem falar dos problemas não relacionados à agropecuária, como a expansão urbana sem planejamento, os aterros sanitários, a construção de hidrelétricas – problemas bastante presentes na região em que Marlene atua, na bacia do Rio Paraná.

Desafios sérios, sem dúvida. Mas se há uma coisa que Marlene provou em sua carreira, é não temer adversidades. “Estamos gerando as informações, encontrando as alternativas. Estamos formando pessoal – tenho ex-alunos trabalhando na área desde o Rio Grande do Sul até o Tocantins. E, se eu já vinha com planos de escrever um livro sobre Recuperação de Solos, agora, com o Prêmio, esta será uma prioridade.”