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Prêmio Fundação Bunge 2015

Dulce Buchala Bicca Rodrigues

Ciências Biológicas, Ecológicas e da Saúde: Saneamento Básico e Manejo de Água

“A minha maior paixão é trabalhar no sentido de transformar aspectos técnicos da Hidrologia e da Gestão de Recursos Hídricos em ferramentas que promovam resultados práticos na vida das pessoas.”

Natural de Campo Grande (MS), DULCE BUCHALA BICCA RODRIGUES interessou-se cedo pelo meioambiente. O convívio com as atividades agropecuárias na propriedade rural da família, no Mato Grosso do Sul, foi o que despertou sua atenção para o tema. “Cresci em contato com o campo na fazenda do meu pai, sempre tive essa preocupação com as questões ambientais. Antes de entrar na universidade, sabia que pertencia a esse meio, mas ainda não tinha definido expectativas concretas para o futuro.”

Era mesmo muito cedo para definições. Foi com 17 anos que Dulce iniciou o curso de Engenharia Ambiental na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Em suas próprias palavras, “foi um mundo de conhecimento e percepções que se abriu”. Já no segundo semestre, ela foi convidada a trabalhar na área de Saneamento, no Laboratório de Qualidade Ambiental, onde fazia análises físico-químicas e bacteriológicas de águas residuárias e de abastecimento. No laboratório, conta que aprendeu muito, “mas sentia necessidade de ampliar meu campo de visão sobre os processos relacionados à água.”

Veio o mestrado, e Dulce começou a trabalhar com conservação do solo e da água em escala de parcelas experimentais e bacias hidrográficas. “Desenvolvi métodos para melhorar o programa de pagamento de serviços ambientais no Brasil, que me inspirou muito. Fizemos algumas propostas para abordar tanto os aspectos hidrológicos quanto os erosivos.” Era só o começo.

Veio o doutorado na Universidade de São Paulo (USP), na Escola de Engenharia de São Carlos, e dentro dele um período no exterior, na Universidade do Arizona, sob supervisão do professor Hoshin V. Gupta, do Departamento de Hidrologia e Recursos Hídricos. As experiências nas duas instituições foram, para ela, fundamentais. “O doutorado foi essencial no delineamento e no desenvolvimento de minha pesquisa, na elaboração de ideias e aprimoramento dos artigos, enfim, na melhor forma de fazer Ciência”, diz Dulce, que em solo americano participou de um projeto de pesquisa chamado SWAN (Sustainable Water Action), iniciativa que mantém parceria com instituições europeias e americanas.

“Foi quando o tema da segurança hídrica me foi apresentado e contextualizado na situação do projeto. Então, pensei: ‘Encontrei o perfil do meu trabalho’, pois percebi que já trabalhava com elementos da segurança hídrica e só me faltava encaixar as peças. Essa era a chave.” Dulce buscou estabelecer uma base conceitual, seguida de propostas metodológicas determinísticas e probabilísticas para avaliação da segurança hídrica. Nos EUA, ela estudou a gestão da Bacia do Rio Colorado e ficou impressionada ao perceber as diferenças entre os sistemas americanoe brasileiro de gestão. Segundo ela, embora o nosso sistema seja mais participativo, acaba sendo mais vagaroso no que diz respeito às decisões.

Ela continua a comparar: “O trabalho foi ficando mais interessante ao longo do agravamento da crise hídrica que, infelizmente, aconteceu no Brasil. Lá, a Bacia do Rio Colorado abastece todo o Sudoeste dos EUA, que tem um clima árido. E é simplesmente uma questão de gestão dos recursos hídricos que faz essa água estar disponível para todas aquelas pessoas. Aqui no Brasil, temos um sistema interessante, mas precisa ficar mais prático. A oferta de água que temos hoje seria suficiente, se tivéssemos uma gestão eficiente”. Ao examinar aspectos gerais das políticas de recursos hídricos nos dois países, Dulce pode sugerir potenciais contribuições entre ambos os sistemas de gestão hídrica.

Ela também estudou a bacia hidrográfica à montante do reservatório Cachoeira, responsável por parte da transposição de águas do sistema Cantareira para a região metropolitana de São Paulo. Da experiência, nasceu uma proposta de metodologia de gestão, simples, integrada e robusta, que considera os níveis probabilísticos da disponibilidade hídrica e que pode ser adaptada facilmente a diferentes locais e temporalidades. Tudo dentro do tripé conceitual da segurança hídrica: a preocupação com condições hidrológicas, a manutenção dos ecossistemas aquáticos e o atendimento às demandas sociais.

Mal chegando aos 30 anos, agora Dulce está mudando de endereço. Em maio deste ano, foi aprovada em concurso da USP e vai lecionar como professora doutora no campus de Lorena, interior de São Paulo. Vai levando uma certeza: ainda tem muito por fazer. “O Brasil necessita de mais trabalhos nessa área. Além disso, sou muito motivada a tornar meu trabalho mais acessível à diversos níveis da sociedade.”