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Prêmio Fundação Bunge 2015

Diego Antônio França de Freitas

Ciências Agrárias: Recuperação de Solos Degradados para a Agricultura

“Para se destacar ainda mais no cenário internacional de produção agrícola, o Brasil necessita investir mais na conservação dos solos, etapa fundamental para a produção de alimentos, manutenção da qualidade ambiental e redução das áreas degradadas.”

Existem pessoas para quem a vocação profissional aparece cedo, decisão tomada na primeira infância que a vida demonstra ser acertada. E existem pessoas como DIEGO ANTÔNIO FRANÇA DE FREITAS, jovem pesquisador de talento reconhecido na área das Ciências Agrárias, para quem a carreira não foi tanto um sonho de criança, mas uma consequência de escolhas práticas. “A gente não planeja muito, a vida vai acontecendo”, reflete o mineiro de 30 anos, homenageado com o Prêmio Fundação Bunge Juventude 2015, por sua contribuição a Recuperação de Solos Degradados para a Agricultura.

Natural de Oliveira (MG), Diego nasceu em ambiente familiar em nada relacionado à escolha que faria pelas Ciências Agrárias. Vivia com pai, mãe e irmã mais velha em região urbana, não tinha parentes agricultores e, se na família já não havia muitos membros com Ensino Superior, Diego foi o único que permaneceu na vida acadêmica, enveredando-se pela pós-graduação, pela pesquisa e pela docência.

A ideia inicial era mais simples: aos 14 anos, decidiu que queria fazer curso técnico, para se profissionalizar simultaneamente ao Ensino Médio, e sair de casa. Era um desafio empolgante, um rito de passagem. Escolheu Florestal (MG), município a 150 km de Oliveira, onde funcionava a Central de Ensino e Desenvolvimento Agrário de Florestal (Cedaf), da Universidade Federal de Viçosa (UFV). “Era uma escola reconhecida na região, foi questão de oportunidade mesmo.”

Além de carga teórica forte, o curso técnico em Agropecuária do Cedaf colocou Diego no campo, em cima de trator, arando a terra, estudando solos, água, plantas. E alguma coisa se “encaixou”: ele sentiu-se bem naquele ambiente. “Quando terminei o curso, sabia que era aquilo que eu queria. Meu teste vocacional durou três anos.”

Na época, 2002, Florestal não contava com Ensino Superior, e o jovem mudou-se para Lavras (MG). Instituição de referência na área, a Universidade Federal de Lavras (UFLA) foi onde descobriu-se pesquisador. “Poderia ter tentado o mercado de trabalho, ter sido técnico, mas as oportunidades que Lavras me ofereceu foram tantas que eu já me formei com a intenção de mestrado e doutorado.” Pela UFLA, formou-se agrônomo (2008), mestre (2010) e doutor (2013) em Ciências do Solo, este último título defendido entre Minas Gerais e os Estados Unidos (o doutorado contou com período “sanduíche” na Universidade de Purdue, no estado de Indiana).

No processo, empreendeu sua própria “marcha para o Oeste”: seu trabalho de graduação dedicava-se a estudar solos em região de Mata Atlântica, no Sul de Minas Gerais, seu mestrado voltou-se para o Cerrado, e seu doutorado, para o Pantanal – região que anima o pesquisador pelas oportunidades inexploradas. “É um bioma ainda pouco estudado, até por dificuldade de acesso de algumas áreas.” Em todos os casos, seu interesse recaiu sobre aqualidade dos solos brasileiros. Mais especificamente, sobre o equilíbrio entre uso da terra e conservação da qualidade dos solos – ou, nos frequentes casos de desequilíbrio, de recuperação de solos degradados.

É uma questão de sintonia entre produtividade e capacidade do solo. Ele cita o caso das pastagens brasileiras – atividade de maior extensão de uso da terra, com grandes índices de degradação – para exemplificar um dos desafios que se impõem a sua profissão: “Se aumentamos a fertilidade do solo, produzimos mais alimento para o gado, colocamos mais bois por hectare. Por outro lado, quanto mais animais pisoteando o solo, maior a compactação e menor a infiltração de água, o que leva a enxurradas e erosão.” O segredo, que está nas mãos de pesquisadores como Diego, é encontrar o ajuste fino, baseado em análises precisas dos atributos do solo e na aplicação de manejo consciente e sustentável.

Uma de suas linhas de pesquisa atuais toca em outro dilema semelhante, que ele tem notado no Pantanal: a adoção de espécies exógenas de capim (não nativa), por parte dos fazendeiros, aumenta a produtividade da pastagem, mas em compensação põe em risco toda uma fauna dependente da pastagem nativa. “Em parte é uma questão econômica: sai mais barato você trazer 1 kg de semente exógena a investir em melhorar a produtividade da planta nativa com adubação do solo, aplicação de fertilizantes e técnicas de manejo.” Ao afirmar isso, Diego não está isentando a Ciência de sua responsabilidade: se o dinheiro é um fator, que se descubram novas tecnologias mais econômicas, argumenta.

A conclusão de seu doutorado coincidiria com o início da docência e com a volta ao lugar onde tudo começou. Após breve passagem como professor e chefe do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em 2014, Diego voltou a Florestal, que desde 2006 passou a contar com instituição de Ensino Superior, um campus da Universidade Federal de Viçosa (UFV). E é lá, como professor e diretor de ensino, que Diego dá prosseguimento a suas pesquisas, além de ensinar e orientar outros jovens que, como ele, se descobriram vocacionados para cuidar dos solos brasileiros.