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Prêmio Fundação Bunge 2012

Segurança Alimentar e Nutricional

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Da quantidade à qualidade

Foi a guerra que fez o mundo usar pela primeira vez o termo segurança alimentar. Mais precisamente, foram a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. Segurança alimentar, para os países envolvidos nos conflitos, era questão de segurança nacional: nenhum país seria vitorioso se não fosse capaz de alimentar soldados e civis. O medo, portanto, era de ordem prática: como produzir alimentos em campos bombardeados?

Com o surgimento da ONU (Organização das Nações Unidas), em 1945, o termo começou a ser usado em outro terreno: o dos direitos humanos. Os olhos do mundo voltaram-se para os famintos e desnutridos da África e da Ásia, e, nas décadas seguintes, as nações mais ricas investiram pesadamente em novas tecnologias e práticas agrícolas nos campos das nações subdesenvolvidas – a Índia seria a primeira – na busca por uma maior produtividade que desse conta de alimentar a todos.

Foi a chamada Revolução Verde, que, durante às décadas de 1960 e 1970, de fato aumentou a produção de alimentos no planeta numa escala jamais alcançada antes. Mas que não acabou com a fome.

Faltava, num primeiro momento, a consciência de que o problema da insegurança alimentar não era simplesmente uma questão de produtividade insuficiente. Produzir mais é apenas o primeiro fator de uma equação que também envolve garantir a todos acesso físico e econômico aos alimentos, melhorar a qualidade do que é produzido, conciliar as necessidades produtivas com a preservação do meio ambiente e com a saúde humana, entre vários outros desafios.

De lá para cá, comunidade científica, governos e órgãos internacionais de combate à fome, principalmente a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) têm tentado reagir ao problema. O Direito Humano à Alimentação Adequada passou a ser reconhecido como ponto central em quaisquer negociações que afetassem a produção e distribuição de alimentos no mundo. Nos debates em torno do tema, o termo “nutricional” foi acrescentado à expressão “segurança alimentar”, para explicitar que a demanda não seja apenas por quantidade, mas também por qualidade na produção e no consumo dos alimentos. Em 2000, a ONU determinou que erradicar a fome e a pobreza seria o primeiro e mais importante dos chamados Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

E, no entanto, hoje, existem perto de 1 bilhão de pessoas com fome no mundo. De acordo com a FAO, os últimos dados disponíveis davam conta de um total de 850 milhões de desnutridos em 2006-2008, e estimativas preliminares indicam que esse número chegou a 925 milhões em 2010-2011. Ainda de acordo com a FAO, o mundo precisará dobrar a sua produção de alimentos até 2050 para suprir as necessidades de uma população estimada em 9 bilhões. Por outro lado, ainda de acordo com a FAO, 1,3 bilhões de toneladas de comida são desperdiçadas anualmente no mundo.

O desafio da Segurança Alimentar e Nutricional – um dos temas contemplados pelo Prêmio Fundação Bunge 2012 – ainda é imenso.

O Brasil na ponta

No Brasil, apesar disso, especialistas vêem motivos para otimismo. “Do ponto de vista da população brasileira, sem sombra de dúvidas estamos caminhando para resolver [o problema da fome]”, diz o biólogo Adalberto Luis Val, diretor do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). “Somos um dos poucos países que têm condições de ampliar a produção agrícola além da média mundial, para contribuir, inclusive, com a iniciativa de erradicar a fome no mundo.” O Brasil é hoje o segundo maior produtor de alimentos do planeta.

Por outro lado, o País está ciente de que “ampliar a produção agrícola” não é o único fator da equação, e que Segurança Alimentar e Nutricional é uma meta transversal que envolve esforços múltiplos, no campo da Economia (enfrentar crises financeiras e flutuação de preços dos alimentos, por exemplo); da Saúde (disseminar conhecimento sobre produção e consumo saudável); dos Transportes e Infraestrutura (melhorar a logística de distribuição); da Política (reduzir desequilíbrios sociais e regionais); entre outros.

Ainda assim, é no campo das Ciências Agrárias que tudo começa, e a importância da agricultura para o mundo, hoje, é maior do que nunca. Recentemente, líderes empresariais e políticos reunidos no Fórum Econômico Mundial produziram o documento chamado “Uma Nova Visão para a Agricultura”, que coloca o agronegócio como motor central para um crescimento focado em três pilares – segurança alimentar e nutricional, sustentabilidade e oportunidade econômica. (Entre os compromissos assumidos, está o de que, a cada década, o planeta aumente sua produção em 20%, reduza as emissões de gases de efeito estufa em 20% e diminua a pobreza rural em 20%.)

Para atingir tal objetivo, a Ciência precisa encontrar respostas. Como produzir melhores alimentos, com mais benefícios e menos riscos para a saúde humana? Como lidar com as mudanças climáticas globais? Como disseminar o conhecimento e treinar agricultores para aplicar na prática as descobertas feitas em laboratório? Como produzir mais sem aumentar o número de terras plantadas? “Precisamos ter um olho na produtividade dos ambientes que já são destinados à produção agrícola, e outro olho na preservação do que ainda resta de ambientes naturais”, diz Adalberto Luis Val. “Até porque são nesses ambientes que vamos encontrar a matéria biológica original para os processos de melhoramento e reposição de variabilidade genética.”

A Ciência, todos concordam, é e será sempre fundamental nesse cenário. Para o engenheiro agrônomo Eliseu Alves, ex-presidente e um dos responsáveis pela criação da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o investimento em pesquisa tem de ser maciço e contínuo – não apenas da iniciativa privada, mas principalmente do Estado. “Digamos que eu descubra uma nova técnica de plantio de soja que aumente a produtividade em 10%. Esse conhecimento será do domínio de todos, o Brasil vai produzir mais, exportar mais, mas não haverá um ‘produto’ para ser vendido. Então por que o setor privado investiria nisso? O risco que temos é de o País investir menos em agricultura porque já temos alimentos demais.”

Um equívoco que, em se tratando de Segurança Alimentar e Nutricional, a história já nos ensinou a não cometer.