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Prêmio Fundação Bunge 2012

Malaquias Batista Filho

57o Prêmio Fundação Bunge – 2012
Segurança Alimentar e Nutricional
Malaquias Batista Filho, premiado na categoria Vida e Obra

“Sim, as crianças estão crescendo. Mas Segurança Alimentar e Nutricional não é só crescer e ser aprovado na balança. É também não ter anemia, deficiência de vitamina A, de B1... Até chegarmos a uma situação ideal, vamos malhar muito ainda”

Até o seu quarto ano de Medicina na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), MALAQUIAS BATISTA FILHO tinha destino traçado: formar-se, retornar ao interior da Paraíba, abrir consultório, prosperar. Quem sabe até, como seria do gosto do pai, tornar-se prefeito de sua cidade natal, São Sebastião do Umbuzeiro, onde a família dispunha de terras e boas condições financeiras. Mas naquele ano, 1959, o então estudante Malaquias decidiu ler Geografia da Fome, de Josué de Castro. E o seu destino mudou.

O mundo inteiro estava mudando, na verdade. Desde 1945, com a criação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), Segurança Alimentar e Nutricional passara a ser vista como um direito humano. Fome e desnutrição, como mazelas de estruturas sociais e econômicas injustas. O médico e cientista pernambucano Josué de Castro, presidente do Conselho Executivo da FAO de 1952 a 1956, foi o principal expoente dessa nova visão.

“[Josué de Castro] me permitiu ter uma visão crítica dos problemas da Saúde e do papel que cabia ao médico nesse novo quadro de referência”, diz Malaquias, que desistiu dos planos de ser um “clínico convencional” para se tornar um “médico de saúde coletiva”, que vê os problemas da Nutrição “a partir de janelas sociais”.

Formado em 1961, no ano seguinte assumiu cargo e encargos no serviço médico da UFPB, indicado pelo movimento estudantil, e no Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência (SAMDU) de Santa Rita, Grande João Pessoa, onde atendia a clientela do movimento camponês pela reforma agrária. Não por acaso, em 1964 foi demitido de ambos pelo governo militar.

Foi “salvo” pelo médico e nutricionista Nelson Chaves, fundador do Instituto (atual Departamento) de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que em 1965 o aceitou em um curso de extensão em Nutrição em Saúde Pública, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Malaquias completou o curso, tornou-se docente e, assim, “exilado em Pernambuco”, onde vive até hoje (ainda faria doutorado na USP, entre 1973 e 1975), desenvolveu uma carreira acadêmica cujas contribuições não caberiam em tão poucas linhas.

Entre elas, destaca-se sua experiência na Unidade de Campo de Ribeirão da UFPE (1967-1972), no interior pernambucano, onde participou de inquéritos nutricionais e estudos sobre hipovitaminose A (causadora de lesões oculares em crianças) que resultaram na decisão do Ministério da Saúde de tornar obrigatório, em 1975, o enriquecimento com vitamina A de todo leite em pó desnatado posto à disposição do consumo humano. Destaca-se, também, sua participação na elaboração do II Programa Nacional de Alimentação e Nutrição (Pronan), marco na política brasileira de Segurança Alimentar e Nutricional, em 1975, e em missões internacionais na América Central e na África, como consultor da FAO e da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).

Hoje, aos 78 anos, Malaquias é professor emérito da UFPE e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e docente da Pós-Graduação do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). Até abril deste ano, foi membro do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea). É também ganhador da Comenda Oswaldo Cruz, do Ministério da Saúde, homenageado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Sociedade Internacional de Geografia da Saúde - Nordeste, autor ou coautor de 147 artigos científicos, publicados dentro e fora do Brasil, e de 43 capítulos de livros técnicos ou didáticos. Publicou dois livros de poesia: A Telha, a Estrada e Outras Poesias e Poemas Diacrônicos.