Prêmio Fundação Bunge 2019

Sobre o prêmio

O Prêmio Fundação Bunge irá contemplar em 2019 profissionais das áreas de Ciências Agrárias, com o tema Agricultura familiar e Artes, com o tema Arte Visual de rua. As indicações ao Prêmio serão feitas pelas principais universidades e entidades científicas e culturais do Brasil até o dia 30 de maio, em seguida, Comissões Técnicas compostas por especialistas em cada área de premiação irão avaliar e escolher os homenageados com o prêmio deste ano.

Os contemplados serão conhecidos em julho e a cerimônia de entrega da 64º edição do Prêmio Bunge e 40º do Prêmio Fundação Bunge Juventude acontecerá em outubro.

Conheça um pouco mais sobre os temas

Na ligação entre duas das principais avenidas de São Paulo – a Doutor Arnaldo e a Paulista –, um túnel com 2.200 m2 de muro tem lugar especial na história da arte urbana nacional. Conhecido como “Buraco da Paulista”, o lugar foi adotado como tela por pioneiros do grafite paulistano, no início dos anos 1980, e desde então já foi palco de algumas disputas entre grafiteiros e pichadores, com novas obras, inscrições gráficas e demãos de tinta sobrepondo-se umas às outras ao longo das décadas, ora com apoio e subvenção do poder público, ora na ilegalidade.

Se ainda hoje o “Buraco” inspira argumentos no persistente debate sobre qualidade e legitimidade da arte urbana, um fato, contudo, é inegável: a arte ali exposta é vista – e vista por muita gente. Para efeito de comparação, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), em 2017, os dez museus mais visitados no País receberam, juntos, um público de quase 9 milhões de pessoas. No trânsito da Avenida Paulista, esse número é atingido em torno de quatro meses. Isso para não falar de dezenas de outros pontos de São Paulo, como o famoso “Beco do Batman”, na Vila Madalena, os pilares do “Minhocão” (Elevado Presidente João Goulart) ou as empenas de inúmeros prédios no Centro e na periferia da maior cidade do País. Que, vale lembrar, é apenas um de 5.570 municípios brasileiros, dos quais, também de acordo com o Ibram, cerca de 20% apenas contam com museus.

Independentemente de julgamentos estéticos, portanto, a Arte Visual de Rua alcança o público, como a arte mantida e exposta por instituições curadoras – museus, galerias, coleções particulares – , infelizmente, não têm alcançado. E essa é apenas uma das razões que levaram a Fundação Bunge a celebrar o tema com o Prêmio Fundação Bunge 2019.

Para o crítico e repórter de Arte Fabio Cypriano – doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde dá aulas na graduação em Jornalismo e pós-graduação em Crítica e Curadoria –, um primeiro valor da arte de rua seria se aproximar das pessoas “sem discriminação de classe social, gênero, enfim, sem nenhum tipo de limite; ela quebra barreiras, convida todo mundo a presenciar”.

“O museu, em geral, mesmo quando ele é gratuito, as pessoas não frequentam”, diz o jornalista e acadêmico, que nota como as próprias instituições museológicas têm buscado se reconectar com o público e reconhecido o potencial da rua como espaço de produção e fruição artísticas. “Vejo exposições importantes no mundo inteiro interessando-se não só por ocupar espaços internos, mas em legitimar ações no lado externo”, diz ele, lembrando que as últimas edições das exposições de arte contemporânea Documenta (Atenas e Kassel, 2017) e Manifesta (Palermo, 2018) contaram com obras e intervenções artísticas espalhadas pelas cidades que as sediaram.

Mas a porta do museu não é a única barreira ultrapassada pela Arte de Rua. Tendo conquistado para si um capítulo na história da arte contemporânea, inicialmente a partir de movimentos espontâneos de grafiteiros na Nova York dos anos 1970, e nas décadas seguintes chegando ao resto do mundo (e ao Brasil), a Arte Visual de Rua tem sua força, em grande medida, pela transgressão, introduzindo elementos questionadores de discursos não apenas estéticos, mas também sociais e políticos.

É o que nota a artista plástica, doutora em poéticas visuais (phd) pela ECA/USP e vice-presidente do conselho administrativo da Fundação Bunge Maria Bonomi, ao comentar a escolha do tema para o prêmio deste ano.

Segundo a artista, trata-se de “uma linguagem expressiva autoral”, “ativista e polêmica”, que surge “para livremente opinar e alterar o entorno das cidades, nos mais surpreendentes suportes: trens, paredes, pontes, túneis, escadas, etc.” Para Bonomi, a Arte de Rua “alivia o paradigma da monotonia dos percursos habituais da população”, chamando a atenção dos passantes para “mensagens não-comerciais” que, talvez assim, introduzam novos sentidos na existência diária.

Ela ressalta a “independência assombrosa” da Arte de Rua em relação a hierarquias críticas e a circuitos comerciais – independência mantida mesmo pelos veteranos que, descobertos nas ruas, já são estudados e codificados pela academia e têm seus trabalhos expostos em galerias e museus pelo mundo, dos quais, no Brasil, “existem pelo menos 50 de primeiríssima qualidade”.

“Se por um lado buscamos detectar valores novos e nos surpreender com possíveis descobertas”, diz Bonomi, referindo-se à categoria Juventude do Prêmio Fundação Bunge, “por outro iremos salientar quem há mais tempo pratica (categoria Vida e Obra), corajosamente, uma modalidade de arte que era vista até com desprezo pela sociedade, até pouco tempo atrás”.

E se aí poderia residir um paradoxo – afinal, a Arte Visual de Rua demonstra não precisar da chancela de prêmios ou do reconhecimento de instituições consolidadas para continuar existindo –, a Arte como um todo certamente se beneficia e precisa desse sopro de liberdade e independência – do mercado, das entidades curadoras, da crítica e às vezes até da própria lei – para se renovar. O que é razão suficiente, e nobre, para que a Fundação Bunge a homenageie.

Mesmo que perdesse todas as propriedades rurais onde pratica a agricultura industrial de larga escala, o Brasil ainda estaria entre os 10 maiores produtores de alimentos do planeta. Eis uma boa forma de se começar a falar da importância, para o país e para o mundo, da Agricultura Familiar brasileira, celebrada como um dos temas do Prêmio Fundação Bunge 2019.

De acordo com o Governo Federal, enquanto a produção agrícola como um todo coloca o Brasil em 5o lugar no agronegócio global, é a agricultura praticada em pequenas propriedades espalhadas pelo território nacional, por famílias que têm na natureza sua principal fonte de renda – agricultores, silvicultores, aquicultores, extrativistas, pescadores, indígenas, quilombolas e assentados –, quem, sozinha, já garante a 8a posição do país nesse ranking.

Se globalmente o setor é uma potência, internamente ele é nada menos que fundamental. Respondendo por 84% dos estabelecimentos rurais no Brasil, a Agricultura Familiar é responsável por 65% do faturamento anual do agronegócio nacional e pela renda de 40% da população economicamente ativa do País. É também dela que vem parte considerável da comida que chega à mesa dos brasileiros: a produção familiar representa 87% da mandioca cultivada no País, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz e 21% do trigo, bem como 60% da produção nacional de leite, 59% do rebanho suíno, 50% das aves e 30% dos bovinos.

Segundo Adalberto Luis Val, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e membro do Conselho Administrativo da Fundação Bunge, essa foi uma das principais razões que levaram a instituição a trazer o tema ao Prêmio Fundação Bunge deste ano. Para o biólogo, a Agricultura Familiar tem papel essencial na garantia da segurança alimentar de um país.

“É muito importante que haja produções de pequena escala perto dos centros consumidores, especialmente para produtos com tempo de prateleira curto – como legumes de maneira geral e folhas –, que não podem ser colhidos a longas distâncias [do consumidor] sem acarretar grandes perdas ou gastos excessivos para acondicionamento e transporte”, diz Val.

Se, por um lado, lavouras familiares fazem chegar mais rapidamente os seus produtos ao homem da cidade, por outro também ajudam a fixar mais o homem no campo, contribuindo com o desenvolvimento das áreas rurais do Brasil, onde a Agricultura Familiar responde pela ocupação de mais de 70% da população, com benefícios econômicos, humanos e ambientais diversos.

E há ainda outra área em que a Agricultura Familiar tem dado grandes préstimos à humanidade e que, considerando-se a natureza do Prêmio Fundação Bunge como um incentivo à Ciência, é de absoluta relevância. Há imenso potencial de geração de conhecimento pelas mãos de pequenos produtores que, em interação direta com recursos naturais em toda a sua diversidade, em diferentes lugares do mundo – diferentemente da agricultura industrial, que opera com fatores em sua maioria já conhecidos e controlados –, entram em contato com novas variedades, novas condições ambientais e técnicas e realizam os primeiros processos de melhoramento de organismos que, mais adiante, podem se revelar decisivos para o advento de novas tecnologias, em favor de uma produtividade agrícola sustentável.

Trata-se de uma parceria entre dois setores – a Agricultura Familiar e o agronegócio – que, longe de ser incompatíveis, podem ser complementares numa troca de saberes. “Há um fluxo de informação de mão dupla”, diz Adalberto Luis Val. “Existem muitos grupos de pesquisa ligados à Agricultura Familiar que buscam novos dados para subsidiar avanços na produção industrial; e, por sua vez, existem vários projetos de extensão que retribuem, levando aos sistemas produtivos de pequena escala o conhecimento obtido em laboratórios”.

A Fundação Bunge busca honrar, assim, o papel que a Agricultura Familiar representa para o desenvolvimento do país e para o avanço das Ciências Agrárias nacionais.

Conheça os contemplados de 2019

Artes - Arte visual de Rua

Categoria Vida e Obra

“Não tenho medo de que a minha arte, por tocar em temas do momento, fique datada. Pelo contrário, meu medo é de que o mundo fique datado.”

Quando o ator e diretor italiano Giovanni Vernia compartilhou uma foto de um grafite crítico à Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014, não deu início apenas a um debate sobre a realização do mundial em um país carente. A imagem do menino sentado diante de um prato onde só se via uma bola de futebol seria curtida e replicada por mais de 25 mil pessoas, entre elas a cantora Rihanna, que a adotou como avatar no Twitter, e daria voz ao paulistano Paulo Ito.

O episódio foi um divisor de águas na carreira do grafiteiro, um artista experiente com tintas e sprays que se viu projetado em todo o mundo. Hoje com 41 anos de idade e 22 de spray, Ito é um dos nomes mais resistentes e potentes da Arte de Rua nacional, com trabalhos espalhados por São Paulo -- não mais o do garoto com a bola, que ele mesmo apagou no ano seguinte -- e pelo mundo. Já pintou em eventos e ruas de países como Espanha, Portugal, Polônia, Alemanha, Itália e Rússia. E é o vencedor deste ano da categoria Vida e Obra do Prêmio Fundação Bunge, que em 2019 homenageia a Arte Visual de Rua.

Embora não seja nenhum grande fã de futebol, o artista queria com o grafite do garoto e da bola discutir a pertinência do Brasil como sede do maior evento da Fifa. Recém-saído da Bienal Internacional de Grafitti de São Paulo realizada um ano antes no Museu Brasileiro da Escultura (Mube), Ito seguia forte nas ruas e a fim de debate. “A pintura era uma crítica à maneira como a organização do Mundial lucrou em cima de dinheiro que não foi, ou pouco foi, revertido para a União”, diz o artista, para quem se posicionar é parte tanto do trabalho como da vida.

“Algumas pessoas imaginam que ser ‘isento’ não é um posicionamento político. Tudo é político, se abster é uma posição. Então, procuro me posicionar, mas de uma maneira não partidária nem panfletária”, diz o paulistano, um fã de humor gráfico que tem o argentino Quino, criador da Mafalda, como “referência eterna” e que também admira e acompanha os cartunistas brasileiros André Dahmer, Allan Sieber e Arnaldo Branco.

Para quem mora fora de São Paulo, o perfil de Paulo Ito no Instagram (@paulo_ito) dá uma boa ideia do que o artista cria. Questões existenciais, de justiça social, a polarização política e a luta por direitos estão entre os assuntos que Ito trabalha. A Copa do Mundo, a Reforma da Previdência, a prisão de líderes comunitários, está tudo ali. Estar ligado a temas quentes, assuntos do momento, não incomoda a Ito. Mais do que sua obra, o artista teme que o mundo atual é que fique datado. Apontando o que chama de “avanço de uma onda conservadora”, Ito nota que “o conteúdo do humor parece remeter ao de tempos atrás”. Temas como desmatamento e homofobia voltaram à pauta do dia. "Questões que já deveriam ter sido superadas reaparecem com força. Por isso, o humor gráfico que se fazia nos anos 1970 ainda é relevante e atual, infelizmente", diz o artista, reforçando a ideia de que é preciso se posicionar.

É o constante questionamento, parte do processo de se posicionar, que alimenta a criação de Paulo Ito. Segundo o artista, ao se questionar, ele dá partida a um processo de buscar imagens que traduzam as dúvidas que sente ou que apontem respostas para as perguntas que se faz.

“Quando consigo transpor o pensamento para o desenho, é como se sintetizasse algo de modo compreensível. É como aquele bordão: entendeu ou quer que eu desenhe?”, diz Ito, que vê a rua como a melhor plataforma para as suas ideias. “A rua toca um nicho maior de pessoas, a galeria é mais específica. No entanto, tenho produzido telas que hoje têm tanto ou mais qualidade [que os grafites de rua], pois tenho o tempo a meu favor. Na rua, parte da produção é feita rapidamente.”

Ito destoa do perfil idealizado de um grafiteiro por ter formação acadêmica -- ele estudou artes na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) -- e por valorizá-la. “Tem artista que pensa que uma trajetória formal arruína o que tem a oferecer a priori. Mas o trabalho pode tomar dimensões menos óbvias.”

Mas, ainda que ganhe em sofisticação com seus questionamentos e sua formação, a arte de Paulo Ito não perde a força de sensibilizar quem passa por ela. “O humor gráfico tem esse papel”, diz. “Ver uma obra dá essa sensação de entendimento, que é recompensatória. A imagem, quando compreendida, sacia uma curiosidade de algo que num instante anterior é uma incógnita. Quando pintei o garoto com a bola, ninguém estava nem aí para a imagem, até eu fazer a bola no prato. Foi o último elemento pintado. Eu senti na hora como isso despertou as pessoas.”

O calor e o teor dos temas abordados por Paulo Ito também não interferem em seu desempenho no mercado. Para se ter uma medida, o artista, que tem no currículo participação em exposições individuais e coletivas, dentro e fora do Brasil, e ilustrações para livros infantis como Para Encher Linguiça (Selo Caramelo, 2011), da clássica Tatiana Belinky, viu aumentar sua lista de trabalhos comerciais ou colaborativos desde 2014. Foram sete só em 2019 e um total de 22 desde a Copa do Mundo do Brasil.

Embora trabalhe sem parar, o grafiteiro depende de convites para se lançar em empreitadas maiores, como em pinturas feitas fora do País, por não ter paciência para se inscrever em editais ou criar redes de contatos -- o chamado networking. “Também sei que muitos curadores temem o que faço, imaginando que na calada da noite vou pintar algo fora do planejado.”

O próximo projeto de Paulo Ito provavelmente vai ser notícia. O artista não dá detalhes, mas adianta que será uma “pintura autoral em grande escala” em São Paulo. Fica a dica: abra os olhos ao navegar por aí.

Artes - Arte visual de Rua

Categoria Juventude

“Estamos fazendo política todos os dias. Sou do lado da humanidade, dos povos indígenas, dos povos originários. Minha política é evidenciar a comunidade.”

O conceito da Arte de Rua, para todos e de todos, não poderia estar mais perto daquilo que Raiz, codinome do baiano de nascença e amazonense de criação Rai Campos Lucena, admira nos indígenas com quem teve a oportunidade de travar contato. Um contato que marcaria de modo intenso e definitivo a vida e a obra do artista, contemplado com o Prêmio Fundação Bunge, categoria Juventude, que este ano homenageia a Arte Visual de Rua. Aos 28 anos, Raiz vem se destacando por dar visibilidade à temática e à cultura indígena, com suas tintas e sprays, nas ruas de Manaus.

Depois de pintar alguns viadutos pela cidade, Raiz foi abordado por um indígena, de quem ouviu a melhor crítica que poderia desejar. “Eu não me vejo nos outdoors, eu não me vejo nas propagandas de dentista, eu não me vejo nos filmes que passam no cinema, não me vejo em telões na cidade, nem nas revistas, nem nos jornais, que só falam mal da gente. Mas agora eu me vejo nos seus murais”, disse o indígena ao grafiteiro. “Essa história até hoje está comigo e mantém o meu foco em pintar, pesquisar e dar voz a esses povos, que de fato não estão inseridos na sociedade”, diz o estudante de Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Federal do Amazonas, faculdade que iniciou em 2016, depois de cursar dois anos de Engenharia, desistir das Exatas e dedicar meia década ao grafite pelas vias de Manaus.

Foi em Manaus que Rai adotou o pseudônimo de inspiração ambiental para grafitar de forma anônima e, de quebra, manifestar sua relação com os chamados povos da floresta. Foi também na cidade que recebeu o prêmio do XI Salão Curupira de Artes Plásticas, em 2018, pela obra “Seres da Amazônia”, na categoria Grafite, quando já contava cerca de uma década de Arte de Rua. “Como sempre fui ligado à natureza, ouvia muito reggae e tinha respeito pela cultura indígena, escolhi Raiz. Bastou colocar um ‘z’ no nome.”

A relação com os indígenas vem de antes: vem da Vila do Pitinga, para onde se mudou com a família ao deixar a terra natal, Paulo Afonso (BA), seguindo o pai, recém-contratado por uma mineradora. “Eu tinha três meses de vida. Nasci na Bahia e fui plantado no Amazonas, onde criei minhas raízes.” Equipada com casas, colégio e hospital para atender aos mineradores, a Vila do Pitinga fica dentro da Reserva Waimiri Atroari. Por 13 anos, no entanto, Raiz quase não teve contato com os vizinhos. Foi quando um passeio da escola mudou tudo - sua relação com os indígenas, sua cabeça e sua arte, que teve início em casa no rastro do pai, o pintor da vila, autor de trabalhos em lojas, igrejas, placas e quadros de Pitinga.

“Uma amiga, descendente de indígenas do Mato Grosso, escreveu para a diretoria da escola pedindo para conhecer os Waimiri, e o colégio articulou a excursão. Alguns alunos foram selecionados e fomos para a aldeia principal, algo que ainda hoje é difícil de conseguir”, diz Raiz. “Foi uma reviravolta na minha vida. Os adultos propagavam informações preconceituosas, diziam que os índios eram perigosos, mas eu cheguei lá e vi um povo igual à gente.”

Ponto de inflexão, o contato com os Waimiri levou Raiz a pesquisar mais sobre os grafismos e a visão de mundo daquele povo. O artista queria retratar os indígenas com detalhes, sem o risco de repisar estereótipos. “Procuro pintá-los o mais fiel possível: seus cocares, seus trejeitos. Gosto de mostrar as diferenças, porque são milhares de etnias e nenhuma é igual à outra. Colocaram o índio em um padrão, e o mundo é diverso. O bonito é a diversidade”, diz o grafiteiro, que admira sobretudo o pensamento comunitário dos povos indígenas. “Eles não se acham donos da natureza, mas parte dela. Nossa sociedade quer viver sozinha em um apartamento, quer acumular coisas. Os indígenas são totalmente o oposto: eles se integram.”

Foi pintando os povos indígenas que o garoto cultivado no Amazonas chamaria a atenção da academia e do mercado artísticos - desde 2012, são seis exposições coletivas e duas individuais. “O grafite na rua comunica mais que uma reportagem ou uma pesquisa científica”, afirma Raiz, que tem travado contato com outras nações indígenas e causas ambientais e pesquisado materiais, técnicas e suportes.

O artista, além de spray, usa pincel, rolo, régua, lápis, caneta, urucum e genipapo. E trabalha com diversos suportes, como muros, paredes, portões, casas palafitas, casas ribeirinhas, casas de madeira e paredes de oca. Agora, tem desenvolvido trabalhos que tomam como suporte esteiras de fibras de tupé e de arumã, adornadas com os grafismos que ele incorporou dos nativos que tanto admira. As esteiras de tupé foram a base das dez obras de sua última individual, aberta no final de maio na Galeria do Largo, no Largo São Sebastião, cartão postal de Manaus.

Ciências Agrárias - Agricultura Familiar

Categoria Vida e Obra

“Nosso projeto proporciona às famílias ter verde na terra e o peixe na mesa; e o excedente vai para a feira, mesmo na época seca.”

Existem centenas de minioásis espalhados por regiões semiáridas do Brasil, onde antes havia seca. Em localidades onde, décadas atrás, o solo era seco na maior parte do tempo e o abastecimento de água dependia de caminhões-pipa do estado, famílias de agricultores veem suas terras verdes o ano inteiro, com lavouras e rebanhos a lhes prover comida na mesa e renda na feira, lagos a abrigar criações de peixes, e pés de fruta a servir de alimento.

O engenheiro agrônomo Luciano Cordoval de Barros – homenageado com o Prêmio Fundação Bunge 2019, dedicado à Agricultura Familiar – é o principal responsável pela disseminação desses minioásis pelo País, porque foi ele que, há cerca de 25 anos, desenvolveu um sistema capaz de colher e conservar a água que cai nessas regiões durante os curtos períodos de chuva, por meio de uma malha de pequenas bacias escavadas em pontos estratégicos do terreno. Pequenas barragens, que dariam nome à tecnologia social pela qual ele seria premiado e reconhecido dentro e fora do País: a tecnologia das Barraginhas.

O problema, sabia Luciano, não era bem falta de água, mas o não aproveitamento das oportunidades que se têm, no momento em que aparecem. E isso, diz o agrônomo, ele aprendeu desde menino.

Sexto filho em uma prole de dez, Luciano nasceu em 22 de outubro de 1948, em Córrego Danta, no centro-oeste mineiro, mas já em seu primeiro ano de vida a família mudou-se para a vizinha Bambuí, com melhores escolas para as crianças estudarem. A mudança foi vontade da mãe, D. Maria Magela Cardoso de Barros. A matriarca era filha do primeiro prefeito de Córrego Danta, liderança política da região, embora as condições materiais não fossem tão pródigas. “Tinha época em que a gente só tinha só duas mudas de roupa, uma para vestir, enquanto a outra estivesse lavando”, conta Luciano.

As crianças ajudavam a cuidar da casa, e a mãe aproveitava para descobrir e incentivar a aptidão dos filhos. Se alguém mostrasse talento para a carpintaria, ela comprava o serrote; se fosse para sapateiro, arrumava um pé-de-ferro. Luciano demonstrou vocação em cuidar da horta no fundo do quintal da casa, ganhou mangueira para aguar e carro de mão para carregar o esterco. “Foi lá que eu comecei a ver que as plantações só iam para frente se eu plantasse semente boa, adubasse, molhasse direitinho”, conta o agrônomo.

Em Bambuí, Luciano estudou até o ginásio, e a maior parte do Ensino Médio fez em Lavras (MG), onde também fez faculdade, na Escola Superior Agrícola de Lavras (ESAL) – hoje Universidade Federal de Lavras (UFLA) – já então referência no ensino de Ciências Agrárias do País. Foi o primeiro da família a fazer faculdade, não por mérito particular, diz ele, mas por sorte de ter nascido no momento certo, em que irmãos e cunhados mais velhos, já trabalhando, podiam custear sua vida de estudante. “Minha vida toda é cheia desses momentos, o segredo é ficar de olho aberto para montar no cavalo arreado na hora em que ele estiver passando”, diz.

Formado em 1973, Luciano foi logo contratado pela Fundação Rural Mineira Colonização e Desenvolvimento Agrário (Ruralminas), que elaborava projetos de irrigação no norte de Minas. Mas, antes de iniciar as atividades, foi enviado pela Fundação para uma especialização em Irrigação e Drenagem no México. Marcou-lhe o viés social que o governo mexicano dava aos projetos de irrigação nas áreas rurais do país. “O estado investia não só para dar viabilidade técnica e econômica, mas também para reter os índios em terras de difícil acesso e não inchar as grandes cidades”. Dois anos depois, fez uma segunda especialização, em kibutz de Israel, que aguçou ainda mais seu olhar para as pessoas beneficiadas pelos sistemas de irrigação. “Se o México foi a semente, lá foi meu amadurecimento no social”, diz Luciano, lembrando da vida comunitária do kibutz, em que todo mundo participava de todos os trabalhos – como na sua infância em Bambuí.

À preocupação social, Luciano foi agregando saber técnico, aprendendo a gerenciar grandes equipes e a lidar com os equipamentos hidráulicos que extraíam e distribuíam a água de barragens, açudes e lagos para as comunidades em torno do município de Janaúba, no semiárido mineiro.

Entre 1979 e 1982, viveu breve período profissional longe do serviço público, atuando em fazendas do grupo Andrade Gutierrez em Minas. Quis experimentar “o lado capitalista”, da iniciativa privada, como descreve o período. Aproveitou a oportunidade que a experiência lhe trouxe: o contato com empresários que viriam ajudá-lo a desenvolver suas futuras pesquisas.

Em 1983, quando foi para o Centro Nacional de Pesquisa de Milho e Sorgo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) na cidade de Sete Lagoas (MG), onde está até hoje, Luciano tinha uma rede de fazendeiros que lhe respeitavam o trabalho e permitiam usar suas propriedades como laboratórios para ele testar novas tecnologias. Tecnologias que, depois, ele disseminaria entre agricultores familiares.

Foi assim que, em meados dos anos 1990, Luciano desenvolveu seu projeto de Barraginhas. A ideia é tão simples quanto eficaz: escavar pequenas barragens ao longo de pastagens e lavouras, de forma a conter a força das enxurradas, prevenindo a erosão e dando tempo para que a água infiltre no solo, alimentando o lençol freático.

“Tem um ditado indiano que diz: ‘Segura a água da chuva onde ela cai’”, conta Luciano. “Começou a enxurrada, você já barra ela, não deixa correr livre. Dali para baixo vai correr outro veio mais fraco, você faz outra Barraginha. Assim vai se criando um eixo úmido de solo, onde se planta cana, folha de palma para gado... E, se por cima o solo está úmido, é porque embaixo está saturado de água. O sistema dá vida à terra até na época da seca, as cisternas nas baixadas ficam cheias até a boca”.

O sucesso da ideia motivou a Secretaria Nacional de Recursos Hídricos, em 1998, a financiar a abertura de 960 novas barraginhas em 60 pequenas propriedades na microbacia do ribeirão Paiol, em Sete Lagoas. Desde então, o projeto-piloto seria visitado por ministros, secretários de governo e delegações de todo o País e do exterior, interessadas em replicar a tecnologia. Só no município de Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, foram construídas 2.500 barraginhas em 40 comunidades. A Fundação Banco do Brasil patrocinou a introdução da tecnologia no Nordeste, com a instalação de 3.600 Barraginhas no Piauí, entre 2005 e 2008, e a Petrobras com 7.000 Barraginhas em seis estados, entre 2007 e 2016.

As Barraginhas foram o ponto de inflexão na trajetória de Luciano. Ele passara as primeiras duas décadas profissionais como “consumidor de água”, bombeando a água de rios e açudes por quilômetros de distância, por meio de caros equipamentos e complexos projetos hidráulicos, agora ele se tornava “plantador-produtor” de água, captando a chuva e devolvendo-a para o solo e os rios. E isso a um custo muito menor, requerendo apenas trator e conhecimento técnico básico, que pode – e deve, na concepção de Luciano – ser repassado às famílias de produtores que são beneficiadas.

“As famílias são os atores principais do projeto”, diz Luciano. Sempre que o projeto é levado a uma nova comunidade, há uma fase de apresentação da ideia para os moradores, depois uma visita deles a alguma fazenda-vitrine, que já tenha Barraginhas instaladas, e uma terceira fase, de treinamento in loco, antes da equipe da Embrapa estar segura de que já podem caminhar sozinhos. Assim o projeto vai criando multiplicadores – “clones”, como define Luciano – que levam o sistema a outras regiões do Brasil.

“Já criamos clones em todas as regiões do País”, diz o engenheiro, que ainda faz bom uso das tecnologias digitais, divulgando o projeto por meio de blog (projetobarraginhas.blogspot.com) e interagindo com os produtores por meio de redes sociais (Whatsapp e Facebook). “Eles mandam foto e áudio dizendo: ‘Luciano, tô com um probleminha aqui’. Em meia hora eu desenho uma sugestão no papel e mando de volta”.

O resultado, ressalta, é mais do que chão úmido e água limpa. Tendo as Barraginhas como carro-chefe, a Embrapa promove um pacote de tecnologias complementares – como lagos lonados (para criação de peixes), fossas sépticas biodigestoras e kit irriga-hortas –, feitas de materiais simples e acessíveis, que dão origem a verdadeiros minioásis. “Nosso projeto proporciona às famílias ter verde na terra e o peixe na mesa; e o excedente vai para a feira, mesmo na época seca.”

Ciências Agrárias - Agricultura Familiar

Categoria Juventude

“Itinga prepara seus filhos para morar fora. A minha visão é de que as pessoas possam morar aqui usando alternativas simples, mas sobre uma base tecnológica, melhorando a vida e o lugar.”

Ela poderia ter feito como tantos de seus conterrâneos. Poderia ter aproveitado a formação acadêmica e profissional para buscar oportunidades que não encontraria na pequena Itinga (MG), cidade onde nasceu. Localizada no Vale do Jequitinhonha, região de grandes belezas naturais e intensos problemas sociais no nordeste mineiro, a cidade foi o ponto de partida da história de Márcia Alves Esteves, ganhadora do Prêmio Fundação Bunge, este ano dedicado à Agricultura Familiar, na categoria Juventude. Quer dizer, teria sido o ponto de partida, se ela não tivesse escolhido ficar na sua terra.

Filha de agricultores familiares, Márcia aprendeu cedo duas grandes lições. A primeira delas foram as possibilidades que o associativismo traz para a atividade agrícola. Desde pequena, frequentava a lavoura comunitária que seu pai liderava, onde se plantava tomate e se produzia farinha, e a criação de gado na propriedade da família. Tudo em pequena escala. “Eu participava muito de tudo aquilo. Todo mundo participava, pais, filhos. A gente se reunia para plantar as sementes, para fazer a farinha, para o pós-colheita. Era assim que funcionava”, relembra.

“Na lavoura, eu sempre via o técnico da Emater chegando para orientar e auxiliar a gente, e pensava: ‘Um dia, ainda vou andar nesse carro’. Parece que eu estava adivinhando”, diz. A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) é a maior e mais antiga empresa pública do setor no País, fundada em 1948, e atua na promoção do desenvolvimento sustentável do setor agrário em cerca de 790 municípios mineiros. Acompanhando a chegada daquele automóvel e seus passageiros, Márcia não apenas teve um vislumbre do próprio futuro, mas também aprendeu uma segunda e importante lição: o conhecimento técnico é fundamental para viabilizar a produção agrícola, seja ela de grande, médio ou pequeno porte.

Como seria fácil de se prever, Márcia seguiu os passos da família e, em 2004, matriculou-se em um curso profissionalizante na Escola Família Agrícola Bontempo, na vizinha Itaobim. Entre o internato e a volta para casa, nos fins de semana, ela foi solidificando a certeza sobre a área e o caminho que queria seguir. Para se formar como técnica agrícola, ela precisava exercer a chamada “atividade retorno”, que tem por objetivo aplicar na própria comunidade os conhecimentos adquiridos. Foi nessa etapa que começou a criar vínculos mais fortes com os agricultores familiares, ao mesmo tempo em que aprofundava o entendimento sobre a realidade de sua região.

Márcia começou a exercer profissionalmente a atividade de técnica ao ser contratada por uma associação de moradores, onde ajudava no desenvolvimento das hortas comunitárias, barragens subterrâneas e outras atividades, sempre dentro da lógica de convivência com o semiárido. Foi durante o curso superior de Ciências Biológicas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que iniciou em 2008, que ela passou a cumprir a profecia feita anos antes, ainda na infância. Começou a trabalhar como técnica na Emater, no município de Jordânia, também no Vale do Jequitinhonha.

Foi lá que focou seu trabalho na redução das desigualdades sociais, tão presentes em sua região, com a implantação de tecnologias de baixo custo, que otimizam a atividade dos agricultores familiares, e a utilização de políticas públicas não apenas de fomento à produção como também da garantia de segurança alimentar. Com essa experiência na bagagem, Márcia retornou em 2013 para sua cidade natal, sempre como técnica da Emater-MG, para ajudar a mudar a realidade da sua comunidade.

Havia muita dificuldade até mesmo de trazer programas de segurança alimentar para Itinga. Foi preciso elaborar um mapa, identificando as famílias e suas reais condições. Márcia aliou esse mapeamento à identificação de agricultores com potencial de comercialização e ao planejamento de ações de assistência técnica, tornando possível a inclusão dessas pessoas em programas e iniciativas que antes passavam ao largo da comunidade, como o Plano Brasil sem Miséria (PSM), o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), todos do Governo Federal, e o programa Pró-Genética, do governo estadual de Minas. “Essa integração de políticas públicas acarretou um ‘boom’ na cidade. Pessoas que antes tinham dificuldades para comprar as coisas mais básicas, jovens que antes não tinham perspectivas, passaram a produzir e gerar renda”, conta.

Ela também voltou sua atenção para a melhoria da pecuária mista na localidade. “Itinga tinha um rebanho muito grande, mas também uma alta taxa de mortalidade do gado, especialmente pela precariedade da alimentação na época da seca. Montamos um projeto de ensilagem (método de armazenamento de forragem para ser usada como alimentação animal no período de estiagem) e conseguimos diminuir significativamente a morte de animais”, diz Márcia, que também mobilizou produtores locais, em parceria com a Prefeitura, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), para melhoria genética dos rebanhos.

É assim que ela tem ensinado a seus conterrâneos, especialmente aos mais jovens, uma terceira grande lição. Uma lição de gratidão e de pertencimento. Tudo o que aprendeu, ela trouxe de volta para aplicar em sua terra natal. “Por ser uma cidade pequena, longe dos grandes centros, que enfrenta muitas dificuldades, Itinga prepara seus filhos para morar fora. A minha visão é de que as pessoas possam se preparar para morar aqui usando alternativas simples, mas sobre uma base tecnológica, melhorando a vida e o lugar. Cada um de nós pode fazer essa diferença”, propõe.

O próximo projeto de Paulo Ito provavelmente vai ser notícia. O artista não dá detalhes, mas adianta que será uma “pintura autoral em grande escala” em São Paulo. Fica a dica: abra os olhos ao navegar por aí.