O paraíso que nasceu do lixo - Matéria - Jornal Cidadania - Fundação Bunge
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Jornal Cidadania • Edição Online 27 • Julho 2014

O paraíso que nasceu do lixo

Localizado no morro do Vidigal, o Sitiê é resultado do sonho e do trabalho de cinco amigos que removeram 12 toneladas de entulho de um lixão irregular para criar um parque ecológico no meio da favela.


Publicado em 20/08/14 às 10h30 envie a um amigoenvie para um amigo

Recuperação Ambiental
Série de atitudes visando restituir a um ambiente degradado um novo ecossistema, em condição que pode ser diferente de sua original. Segundo o Ibama, há uma diferença em relação a “Restauração Ambiental”, que é quando se restitui ao ambiente a mesma vegetação suprimida antes da degradação.

O morro dos Dois Irmãos, que separa os bairros Leblon e São Conrado, na Zona Sul do Rio Janeiro, começou a ser ocupado pelos idos de 1940. No começo havia apenas uma ladeira de terra batida no meio de intensa Mata Atlântica, e a essa comunidade que nascia foi dado o nome de Vidigal.

Com a intensificação da migração para o Rio de Janeiro, a favela começou a crescer, e áreas de encosta e de proteção ambiental foram ocupadas irregularmente. A favela subiu o morro dos Dois Irmãos em espiral.

Nos anos 1980 houve um deslizamento de uma enorme rocha, que deixou muitos mortos, feridos e desabrigados, o que levou o poder público a fiscalizar as encostas do Vidigal. Na face leste do morro, sobre a avenida Niemeyer, muitas famílias foram removidas e indenizadas pela prefeitura, no início dos anos 1990. Mas os escombros das casas ficaram por lá. Logo, os moradores começaram a despejar lixo nos entulhos, e essa área virou um lixão irregular.

Em 1998, dois amigos, Vitor Alves – músico e artista plástico –, e Mauro Quintanilha – professor de música –, ambos moradores da favela, tiveram a ideia de transformar esse lixão num parque, já que havia poucas áreas de lazer no Vidigal.

Da ideia ao início dos trabalhos foram sete anos. Em 2005, eles se juntaram a Paulo Almeida, Manoel Silvestre e a Tiago Bezerra, e esse quinteto começou o trabalho de remover e reaproveitar 12 toneladas de lixo durante seis anos, para criar o que hoje é o Parque Ecológico Sitiê. O nome Sitiê vem da mescla das palavras “sítio” e “tiê-sangue”, espécie de belo pássaro negro e escarlate que visita com freqüência o lugar. No começo eram 8,5 mil metros quadrados, hoje a área total do parque chega a 85 mil metros quadrados.

Parque Ecológico Sitiê

No Parque Sitiê as escadas são feitas de pneus velhos, assentos sanitários descartados serviram como vasos de plantas, as mesas têm a estrutura feita com rodas de bicicletas e o tampo com os pneus. Tudo lá foi reaproveitado ao máximo. O Jardim Botânico doou mudas que foram plantadas por todo o parque, e uma horta comunitária fornece alimentos para os moradores.

Horta comunitária que fornece alimentos para os moradores.

E foi assim que cinco amigos, sem dinheiro algum, mas com força de vontade, transformaram um lixão abandonado num dos mais interessantes parques do Rio de Janeiro. A experiência de sucesso vem chamando a atenção da imprensa do mundo inteiro – segundo Vitor Alves, o projeto mais conhecido fora do que dentro do Brasil (“até pra televisão do Japão eu dei entrevista”).

Na entrevista a seguir, ele explica em mais detalhes o processo de idealização e construção do Sitiê, se coloca à disposição para ajudar a realizar de projetos semelhantes e afirma: “Não precisa de dinheiro para fazer as coisas, é só querer.”


SERVIÇO
Sitiê Parque Ecológico do Vidigal
(Um pouco antes do Mirante Arvrão, seguir a entrada do lado direito até encontrar uma placa indicativa – Parque Ecológico)
Telefones: (21) 97541-7275 | (21) 98709-8183 | (21) 3242-4161.
Horário de funcionamento: 3a a domingo, das 10 às 18h.


DE MÃOS ABERTAS PARA TRANSFORMAR
Entrevista com Vitor Alves, 38. Músico, artista plástico e um dos idealizadores do Parque Ecológico Sitiê, no morro do Vidigal, Rio de Janeiro (RJ).


De quem é o terreno do Parque?
É uma área de reserva ambiental que pertence à União.

Como estava a área quando vocês tiveram a ideia de fazer o parque?
Quando cheguei lá, em 1988, tinha muito lixo. Vários sacos plásticos pendurados pelas árvores, entulho das casas removidas deixados pela prefeitura. E muitos, muitos ratos, e todos os tipos de insetos. O acesso para a área era muito difícil.

Vocês tiveram que pedir autorização para algum órgão público? Já tiveram algum problema com eles?
Nunca tivemos nenhum problema, só recebemos elogios. Até os traficantes que na época passavam por ali elogiavam nosso trabalho.

Qual foi a influência da instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no Vidigal para o desenvolvimento do parque?
A UPP não repercutiu em nada sobre nosso projeto.

Para onde vocês levaram as 12 toneladas de lixo e entulho?
O mais fácil seria jogar para baixo, mas queríamos fazer tudo direitinho. Levamos tudo para a praça do Parque Ecológico, mais pra cima.

E onde os moradores começaram a jogar seu lixo?
A construção do parque coincidiu com a melhora da coleta de lixo na favela, que antes era quase inexistente. Os moradores começaram a jogar lixo e entulho nas caçambas da prefeitura.


Qual foi a relação do Sitiê com o Jardim Botânico?
Eles nos doaram algumas mudas, mas muitas delas eu mesmo trouxe de São Gonçalo, como árvores frutíferas, bromélias, horquídeas, pingos-de-ouro. Carregava sozinho sacos com estrume de boi para adubar a terra. Uma vez fui parado pela polícia, acharam que eu iria misturar esterco com maconha...

Qual você acha que foi a maior contribuição do Sitiê para os moradores do Vidigal?
Além de agora eles terem uma linda área de lazer, o Vidigal passou a ser conhecido internacionalmente por causa desse projeto. Vieram televisões nacionais e internacionais. Mas acho que o Sitiê ficou mais conhecido no exterior que no Brasil, até pra televisão do Japão eu dei entrevista.

Qual dica você dá para quem quiser montar um parque ecológico em sua comunidade?
Estamos de mãos abertas pra qualquer pessoa que queira fazer, é só nos ligar que nós ajudamos. Queremos expandir o Sitiê para outras favelas, como já levamos para a favela de Manguinhos, na Zona Norte. Onde era uma área degradada e cheia de “cracudos”, hoje é uma horta comunitária. Hoje estou em São Gonçalo agora para organizar um projeto Sitiê por aqui.

Quanto vocês gastaram nesses anos todos com o projeto?
Nada. Fizemos o Sitiê sem qualquer custo financeiro, sem dinheiro nenhum. Não precisa de dinheiro para fazer as coisas, é só querer. Se nós tivéssemos dinheiro, talvez nem tivéssemos feito nada, teríamos gasto tudo. Passamos muita fome enquanto trabalhávamos no Parque. Eu sou muito espiritualista, às vezes me alimentava de oração. Orávamos, a fome passava e continuávamos trabalhando.

E o Sitiê trouxe algum retorno financeiro para vocês?
Financeiramente não mudou nada, mas virtualmente mudou muito: fiquei conhecido no mundo inteiro. E nós nunca pensamos em dinheiro.

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