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Jornal Cidadania • Edição Online 27 • Julho 2014

Mais jovens e crianças

Para atrair um público infanto-juvenil cada vez maior, museus tornam-se lugares informais, interativos e divertidos


Publicado em 20/08/14 às 10h45 envie a um amigoenvie para um amigo

Desde que entrou em cartaz em 16 de julho no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, a Exposição Castelo Rá-Tim-Bum vem atraindo cerca de 1.500 visitantes todos os dias, de acordo com a Secretaria de Cultura do Estado. A procura é tanta que o MIS estendeu o horário de visitação. Também em São Paulo, cenário semelhante se vê, aos sábados, no galpão da Galeria Fortes Vilaça, que recebe as obras da mostra “Ópera da Lua”, dos irmãos grafiteiros OSGÊMEOS até 16 de agosto. E diariamente, por dois meses, uma fila sem fim se formou em torno do Instituto Tomie Ohtake, que abrigou a exposição “Obsessão Infinita”, da japonesa Yayoi Kusama, encerrada no dia 27 de julho.

Em comum nas três situações, a grande quantidade de jovens e crianças, dispostas, nos dias mais movimentados, a esperar horas para visitar as obras e instalações expostas. É o bastante para abalar o estereótipo de que museu é um lugar careta para gente grande e séria.

A presença do público infanto-juvenil também é notada em outros museus da cidade, como o Catavento. Dentre os museus administrados pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, ele é o mais visitado, recebendo aproximadamente 44 mil visitantes/mês. Neste museu interativo dedicado às ciências, o público infanto-juvenil é maioria.

Engana-se quem vê nesses números uma obrigação imposta pelas escolas. Embora as visitas escolares sejam comuns, a maior parte do público que chega aos museus consultados pela reportagem vai de forma espontânea. No Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, 83% do público é formado por famílias com crianças e adolescentes que comparecem aos fins de semana.

Para Paulo Miyada, coordenador do núcleo de pesquisa e curadoria do Instituto Tomie Ohtake, “nos últimos 10 ou 15 anos” houve uma mudança da imagem dos museus. Antes encarados por muitos como locais rígidos, intimidadores e nada divertidos, essas instituições culturais vêm se tornando opções de lazer. “Às vezes, o museu é uma das poucas opções gratuitas em uma cidade como São Paulo, onde quase tudo é direcionado ao consumo.”

Mudar a imagem é, de fato, essencial para os museus atrairem público, especialmente o infanto-juvenil. Para isso, os profissionais da área vêm usando diferentes artifícios. Alguns incluem em sua programação anual temas próximos à realidade dessa faixa etária, como a grafite d’OSGÊMEOS ou o programa de TV “Castelo Rá-Tim-Bum”. Outros, como o Museu Nacional, focado em ciências naturais, apostam em uma atmosfera relaxada e informal. “As janelas são abertas, há ventilação, e nossos mediadores são jovens”, explica a pedagoga e técnica em assuntos educacionais do museu Sheila Villas Boas. Ela acredita que essas medidas fazem com que crianças e adolescentes se identifiquem com o museu e sintam-se à vontade. “Nosso diferencial é receber o visitante como se ele estivesse em casa”, diz.

De fato, não são todos os espaços que fazem isso, como relata a designer paulistana Luiza Pannunzio, mãe de Clarice, 3, e Bento, 2. Apesar de manter o hábito de levar os filhos a museus, ela reconhece que muitas vezes, os espaços não são convidativos para crianças. “Não pode chorar, não pode tocar [as obras], não há trocadores nos banheiros, não pode entrar com carrinhos”. Se por um lado ela considera “muito bom e enriquecedor para a criança”, ela avisa que é preciso “haver muita disponibilidade dos pais” para encarar o programa.

Incentivar a interação com o conteúdo exposto, especialmente, é bastante apreciado – pelas famílias e pelos profissionais dos museus. “Tudo o que é interativo é mais fácil para as crianças”, diz Luiza. Para Ana Lima, do departamento educativo do museu Catavento, isso acontece pois a interação permite que a criança e o jovem “tornem-se parte do artista, da instalação”.

A interatividade pode se dar de diversas formas. No Espaço do Conhecimento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, o destaque é a exposição permanente “Humano, Demasiado Humano”, que utiliza recursos audiovisuais interativos para proporcionar ao visitante uma experiência visual, tátil e sensorial. Em Porto Alegre, a exposição “CSI: a Ciência contra o Crime”, do Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), diverte ao transformar o visitante em investigador, pondo a prova sua capacidade de observação e dedução para que desvende um “crime”: o furto do osso de um esqueleto de dinossauro exposto no museu. Já no MIS, em São Paulo, a produtora Patrícia Oliveira conta que uma das atividades de grande sucesso para essa faixa etária foi o “grafite animado”, que simulava a criação de um grafite com o uso de um computador. “É uma geração bastante informatizada”. Segundo ela, iniciativas que usam a tecnologia para que o público expresse sua criatividade são bem recebidas.

Dinossauro exposto no Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS)

 

O Museu do Futebol, localizado no estádio do Pacaembu, em São Paulo, é outro que usa a tecnologia para envolver o visitante. Entre as atrações, há projeções de jogadores em tamanho real e vídeos narrados por diversas personalidades apaixonadas pelo esporte, como Lima Duarte, Luis Fernando Veríssimo e Ruy Castro.

Para Miyada, do Instituto Tomie Ohtake, o uso de aplicativos e sites, pouco comuns por aqui, mas já bastante usados em museus do exterior, são uma forma de engajar os jovens. Ano passado, os alunos do Departamento de Artes e Design da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) produziram animações para ilustrar e complementar a coleção do Museu Nacional e um aplicativo de leitura de código de barras, que mostra informações mais detalhadas sobre as obras para tablets, smartphones e outros dispositivos móveis.

A novidade, por outro lado, pode causar problemas, caso se torne fonte de distração. Quem foi à exposição de Kusama, no Tomie Ohtake, ou d’OSGEMEOS, na Galeria Fortes Vilaça, provavelmente teve de desviar de câmeras de celulares, especialmente dos jovens, que não perderam a chance de conseguir uma boa “selfie” (foto de si). Para tentar controlar a interferência nas visitas mediadas do Museu Nacional, negocia-se um prazo para a fotografia após cada explicação. Miyada diz que lidar com o uso da tecnologia nos museus “será o desafio dos próximos anos”.

A tecnologia, porém, não é a única nem, necessariamente, a forma mais eficiente de despertar a atenção do público infanto-juvenil. O Museu Nacional, por exemplo, disponibiliza um fóssil de pterossauro instalado de tal forma que simula o voo do animal, além de um acervo tátil – com réplicas que podem ser tocadas pelos visitantes – criado para facilitar a visita de deficientes visuais, mas que é também bastante elogiado pelas crianças. Em Curitiba, o Museu Oscar Niemeyer costuma oferecer oficinas para que os visitantes de todas as idades se expressem criativamente a partir do que viram e apreenderam; uma mostra de Rembrandt enseja oficinas de gravura, outra, do pernambucano Francisco Brennand, motiva aulas para construção de peças com argila, por exemplo. Já na mostra de Yayoi Kusama, no Tomie Ohtake, a sala que abrigava uma colagem colaborativa foi um sucesso entre crianças e jovens, que recebiam uma cartela de adesivos de bolinhas para serem colados no chão, paredes e móveis.

“É uma geração de apelo visual muito intenso”, afirma Villas Boas, apontando que, especialmente para esse público, a iluminação e a coloração sejam bem pensadas. De acordo com sua experiência, a combinação de preto e branco, por exemplo, não é boa. “Se não tiver apelo visual, você afasta o visitante. É preciso haver diálogo com o objeto”, diz.

Para que esse diálogo seja efetivo, porém, a comunicação precisa ser clara. A estudante paulistana Isabel da Fonseca, 17, que frequenta museus desde os três anos de idade, acha que especialmente as obras modernas deveriam ter uma explicação adequada ou perdem o sentido. “As explicações de algumas obras não dizem nada”.

Mesmo as tradicionais visitas escolares, garantem os profissionais, têm potencial para atrair um público que, ao contrário de Isabel, não tenha o hábito de frequentar museus – e, o que é mais importante, de convencer esse público a voltar. “O jovem vem com a escola e depois traz a família”, conta Ana Maria, do Catavento. Para Villas Boas, do Museu Nacional, ao fazer isso, eles criam um “vínculo afetivo com o museu”.

10 dicas para estimular os pequenos gostarem de museus
1. Encorajar a participação do público por meio de atividades interativas.
2. Mostrar informação clara e coerente sobre as obras.
3. Incluir recursos audiovisuais extras, como filmes, animações, projeções.
4. Criar um ambiente convidativo para os pais: trocadores nos banheiros, permissão para entrar com carrinhos, etc.
5. A comunicação de monitores e educadores deve ser adequada à idade da criança/jovem.
6. Manter uma atmosfera relaxada e informal.
7. Oferecer um ambiente iluminado e ventilado.
8. Mostras de temas próximos à realidade das crianças e jovens.
9. Disponibilizar oficinas e atividades nos fins de semana.
10. Manter visitas educativas para escolas e grupos agendados.

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