Crítica Literária - Matéria - Jornal Cidadania - Fundação Bunge
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Jornal Cidadania • Edição Online 12 - Abril 2013

Crítica Literária

Tema do Prêmio Fundação Bunge de 2013, o ofício do crítico literário tem uma história marcada pelo debate sobre critérios e seu papel na sociedade: o que faz e para que serve a Crítica, afinal?


Publicado em 10/05/13 às 14h30 envie a um amigoenvie para um amigo

Assim como na edição anterior, dedicada ao tema “Agricultura e Recursos Hídricos”, o Cidadania traz agora matéria especial sobre “Crítica Literária”, o segundo campo das Ciências, Letras e Artes contemplado pelo Prêmio Fundação Bunge 2013. Os profissionais premiados em ambos os campos só serão anunciados em 26 de julho, mas aqui você pode ler um extenso histórico da Crítica Literária, desde quando ela se estabelece como atividade sistemática e constante no mundo ocidental, em fins do século XIX, até os dias de hoje. Esperamos que a leitura, repleta de links para fontes de informação relacionadas, contribua para o leitor formar opinião a respeito do valor e do papel do crítico – “um homem que sabe ler e que ensina os outros a ler” – no mundo contemporâneo (reflexão esta que pode levar a diferentes respostas, a depender do que se entende por Crítica). E, assim, talvez, possa apreciar ainda mais a importância dos profissionais contemplados pelo Prêmio Fundação Bunge, daqui a alguns meses.

Ensinando os outros a ler

Entre fins do século XVIII e início do século XIX, a Europa foi inundada por livros. Enquanto o projeto iluminista conduzia à escolarização das massas e à valorização dos livros como veículos de saber e entretenimento, a revolução industrial garantia uma produção editorial em escala e velocidade sem precedentes. Demanda e oferta se encontravam e se alimentavam mutuamente.

Nesse cenário, surge a Crítica Literária. Ou melhor, é aí que ela se estabelece como atividade sistemática e constante, embora, pelo menos desde Aristóteles e sua Poética, em 335 a.C., o homem já buscasse compreender melhor a estrutura, os elementos e os efeitos de uma obra de criação literária. Mas, no início do século retrasado, essa busca tornava-se uma necessidade. Como explica o crítico e professor de Literatura Comparada da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) João Cezar de Castro Rocha, “dada a quantidade de informação que circulava através do texto impresso, surgiu uma figura intermediária entre o número imenso de publicações lançadas e o público: o crítico literário”.

O crítico seria “um homem que sabe ler e que ensina os outros a ler”, na definição clássica atribuída ao francês Charles Augustin Sainte-Beuve (1804-1869). “Ou, de uma maneira mais cínica”, complementa Castro Rocha, “poderíamos dizer que era uma espécie de filtro, que autorizava que as pessoas deixassem de ler um grande número de textos e privilegiassem aqueles que ele [o crítico] comentava”.

Foi nas páginas da revista alemã Athenaeum, editada entre 1798 e 1800, que o “filtro” foi posto para funcionar pela primeira vez. A revista dos irmãos August Wilhelm e Karl Wilhelm Friedrich Schlegel é provavelmente a primeira dedicada à crítica de arte, não apenas literária. (Posteriormente, uma publicação inglesa de mesmo nome se tornou uma das mais influentes do gênero durante quase um século, de 1828 a 1921.) Considerada marco fundador do Romantismo Alemão, a Athenaeum estabelecia, em seus artigos, preceitos e terminologia básicos para o ofício do crítico. De acordo com a professora de Literaturas de Língua Inglesa na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Sueli Cavendish, “para os primeiros românticos alemães, a crítica de arte se torna reflexão sobre a obra, desdobramento da obra”.

O problema no cerne da noção de filtro, porém, é que ela necessariamente depende de critérios – e critérios evoluem, transformam-se, descartam-se. Hoje, por exemplo, raros serão os críticos que condicionarão o valor literário de uma obra à sua utilidade social; no entanto, era justamente isso que defendia o romano Quinto Horácio Flaco, no ano 18 a.C., ao escrever a sua carta para um jovem poeta, que viria a se tornar o seminal Arte Poética: “Os poetas desejam ou ser úteis ou deleitar, ou dizer coisas ao mesmo tempo agradáveis e proveitosas para a vida”. Para Horácio, até mesmo uma história “de nenhuma graça, sem expressão”, desde que “corretamente caracterizada”, manteria o interesse do público e agradaria mais do que “versos pobres de assunto e frivolidades”.

Se há uma constante na história da Crítica Literária, portanto, é o debate sobre critérios e onde encontrá-los: devem ser considerados apenas os elementos intrínsecos ao texto, independentemente do ambiente e da época em que foi produzido, ou o crítico deve levar em conta elementos extraliterários, como a biografia do autor, o contexto histórico – ou mesmo as suas próprias impressões enquanto leitor? É função do crítico atribuir um juízo de valor à obra, ou esse papel não lhe cabe? O que faz e para que serve a Crítica, afinal?

O filtro perde o sentido

No Brasil, o paradigma da Crítica como serviço para o grande público, provido por inúmeras publicações jornalísticas, prossegue até meados do século XX. Estampam as páginas dos jornais brasileiros, nessa época, nomes como Otto Maria Carpeaux (1900-1978), Augusto Meyer (1902-1970), Álvaro Lins (1912-1970), Anatol Rosenfeld (1912-1973) e Antonio Candido (1918- ). Todos de grande erudição, com sessões semanais fixas nos principais veículos da imprensa, em espaços privilegiados, em geral nos rodapés dos cadernos de Cultura, donde se convencionou chamar ao que faziam de “crítica de rodapé”. Sem formação especializada em Letras ou Literatura (que ainda não existia nas universidades), ofereciam análises impressionistas, em textos de fôlego (“cinco a seis laudas”, recorda Candido), porém com linguagem acessível ao brasileiro médio, a quem, supunha-se, estariam “ensinando a ler” – ou ensinando o que se ler.

Os mais célebres desenvolviam estilo pessoal e não só emitiam opiniões como eram instados a isso. “Eu recebia um livro: Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem. Quem será? Eu não sabia quem [ela] era e tinha que dizer se o livro era bom ou ruim”, contou Candido ao Estado de S.Paulo, em entrevista de 2011. O acerto que se revelou o aval dado por Candido à jovem Clarice, assim como outras apostas bem-sucedidas em autores então estreantes, como Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, ajudaram a formar e a consolidar a reputação do crítico como um dos mais importantes de sua geração. (Apostas que ele fazia, aliás, consciente do perigo: “Costumo dizer que a Crítica Literária daquele tempo era uma atividade de alto risco. O crítico arriscava sua reputação toda semana”.)

Até que, por volta dos anos 1940 e 1950, após a II Guerra Mundial, três fatores contribuíram para mudar radicalmente esse cenário, a concepção de Crítica e o que se esperava desse profissional.

Em primeiro lugar, como explica o jornalista, crítico literário e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE Cristiano Ramos, “no pós-guerra o jornalismo vai passar a ser muito regido por agências de notícia e manuais de redação; o texto tem de ser mais sintético, mais imparcial, mais informativo” – o que não caracterizava a Crítica feita até então. Além disso, nota João Cezar de Castro Rocha, o Brasil da década de 1950 ganha outro veículo que vai rivalizar e eventualmente suplantar o livro como principal meio de comunicação de massa: a televisão. “O texto impresso deixou de ser o centro da comunicação e da transmissão de valores na cultura”, diz Castro Rocha. Consequentemente, o peso dado pelos jornais às reflexões literárias teve de ser reconsiderado.

O principal fator de disrupção, porém, acontece dentro das universidades. “É quando chega a esse meio a crítica acadêmica, com o surgimento dos primeiros cursos de Teoria da Literatura”, diz Cristiano Ramos. “Esse pessoal tenta trazer para a imprensa um rigor analítico, metodológico.” A nova corrente trouxe nomes ligados à – e baseados na – universidade, como Afrânio Coutinho (1911-2000), para liderar o debate público sobre literatura. Em 1947, Coutinho voltava ao Brasil depois de uma temporada de cinco anos na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, onde entrara em contato com a chamada New Criticism (“Nova Crítica”), que propunha a utilização de critérios objetivos na aplicação do “filtro” da Crítica – que, aliás, já nem devia mais funcionar como “filtro”, no sentido de determinar o que passa ou não passa pelo gosto do avaliador. A obra literária era um objeto a ser estudado, e não qualificado. E estudado cientificamente, com critérios próprios, distintos do que era feito até então.

A Crítica encastelada

Em artigo publicado em 2011, na revista de estudos literários Terra Roxa e Outras Terras, a pesquisadora Ana Luiza Martignoni Spínola, da Universidade Estadual de Londrina (PR) assim explica a posição de Coutinho à época: “[As novas tendências críticas tinham] como parâmetro principal fatores intrínsecos ao objeto literário. [Já] a Crítica Literária brasileira na década de 40 estava voltada a critérios, segundo [Coutinho], extrínsecos à Literatura, ora embasados na vida do autor (Álvaro Lins), ora embasados em teorias sociológicas e direcionamento histórico (Antonio Candido)”.

No artigo, a pesquisadora “dá a palavra” ao próprio Afrânio Coutinho, que no texto “Crítica de Mim Mesmo” defende os novos profissionais que ele inspirou e ajudou a formar (ele foi responsável pela primeira disciplina acadêmica de Teoria e Técnica Literária no País, em 1951, e pela fundação da Faculdade de Letras da UFRJ, em 1965): “Há seriedade, anti-improvisação, preocupação científica, entre os jovens críticos. [...] Respeita-se a história, a influência do meio, o papel do autor e do público, da língua. Mas o essencial no ato crítico é o estudo da obra. E isso é nova crítica.”

“Não se pode ignorar o extraordinário avanço realizado na universidade, a criação de um conhecimento sistemático sobre o texto e sobre a dinâmica da própria Literatura”, diz João Cezar de Castro Rocha. No entanto, segundo o crítico carioca, a corrente acadêmica da qual Afrânio Coutinho foi o ponta-de-lança trouxe também outras consequências indesejadas. Primeiro, ao substituir o rodapé pela cátedra, os chamados “críticos-professores” passaram a utilizar linguagem muito menos acessível ao leitor médio, um jargão técnico próprio, além de concentrarem esforços menos em obras contemporâneas – sobre as quais ainda não haveria formada uma base conceitual e teórica sólida para o estudo científico – e mais no cânone já estabelecido (“Na universidade houve sempre a seguinte tradição no Brasil e fora: não se escreve sobre autor vivo”, declarou Antonio Candido na entrevista ao Estado de S. Paulo).

Perdia-se, assim, a capacidade de comunicação que havia feito da geração anterior influente no cenário das letras nacionais. “A Crítica se viu cada vez mais encastelada na universidade”, diz Castro Rocha. Os jornais, por outro lado, passaram a privilegiar a resenha – em teoria, mais sintética e objetiva que uma crítica – nos espaços dedicados à Literatura. Não foram poucos os acadêmicos, então, que passaram a decretar “a morte da Crítica”.

“No jornal, a principal [consequência] foi a predominância do release, do marketing, da divulgação editorial ligeira e interesseira, sobre a análise das obras e a reflexão aprofundada sobre temas literários”, afirmou o crítico literário e professor de Literatura da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Alcir Pécora, em entrevista ao Jornal da Unicamp, em 2004. O crítico e professor da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) Luiz Costa Lima é ainda mais veemente, direcionando suas baterias contra a crítica feita atualmente não somente nos jornais, mas também nos suplementos literários: “Esta não merece sequer ser declarada falida, porque não é crítica, mas notícia, informativo ou semelhante” (leia entrevista completa com Costa Lima aqui).

Já Sueli Cavendish, da UFPE, prefere uma reação mais ponderada, reconhecendo que o espaço da Crítica na imprensa ainda existe, porém não da forma ideal. “É preciso lembrar que o objetivo principal dos meios que publicam resenhas é alcançar o maior número possível de leitores, e qualquer crítica que se afaste desse objetivo, por perseguir uma análise de maior fôlego, é desde logo rejeitada pela grande mídia”, diz Sueli. Para ela, “deve haver um canal de comunicação entre os meios universitários, onde o pensamento tem um pouco mais de liberdade especulativa que nos outros meios submetidos aos interesses de mercado, e a comunidade literária, de poetas, ficcionistas e leitores. Não defendo a ideia de que [apenas] da Universidade vêm as ideias a serem disseminadas, mas sim que haja total porosidade entre os meios.”

Semelhante postura conciliadora entre imprensa e academia é o que propõe o jornalista José Castello, que escreve para O Globo e se define não como um crítico tradicional, mas como um cronista e “um leitor comum”: “Vivemos um momento em que essas duas tendências (a acadêmica e a impressionista) devem se reaproximar, devem dialogar, devem se respeitar. Porque uma tem muito o que ensinar à outra”, diz (leia entrevista completa com Castello aqui). Ele cita o trabalho de João Cezar de Castro Rocha, crítico de formação acadêmica, como alguém que consegue fazer essa ponte. E o próprio Castro Rocha admite: sua visão é de que a Crítica deve – e pode – se reinventar, “combinando de maneira complexa a capacidade de se comunicar com um público mais amplo com as conquistas da crítica universitária, que é a compreensão profunda do processo de estruturação da obra. O que nos impede, pelo menos como projeto, de reunir as duas coisas?”

Mas esta, talvez, seja uma pergunta que só possa ser respondida com outra, a pergunta fundamental.

Para que serve a Crítica, afinal?

“A opinião de um crítico literário tem a capacidade de alavancar uma obra”, diz Ruy Martins Altenfelder Silva, curador do Prêmio Fundação Bunge que, este ano, inclui a Crítica Literária entre seus temas. “Recentemente, o estreante Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, de Arceburgo, município de nove mil habitantes no sul de Minas, autor de As Visitas que Hoje Estamos, se tornou a nova sensação da literatura nacional. Sua obra foi citada pelo professor de Teoria Literária da PUC, Luiz Costa Lima, que publicou uma resenha elogiosa sobre o livro num jornal de circulação nacional, em janeiro. Desde então, o trabalho de Ferreira atraiu a atenção e recebeu palavras de louvor de críticos e artistas.”

O fenômeno descrito por Silva realmente ocorreu, embora o poder de “alavancar uma obra” (em outras palavras, aplicar o filtro) através da Crítica já tenha sido severamente comprometido. Basta observar os dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, publicada em 2012 pelo Instituto Pró-Livro, para ver que apenas 7% dos leitores brasileiros apontam críticas e resenhas como um dos “fatores que mais influenciam na escolha de um livro”.

Se a função da Crítica já não é tanto ensinar o que se ler, quase todos os especialistas parecem concordar, porém, que ela ainda pode ensinar como se ler. Para Cristiano Ramos, isso significa “apontar caminhos de leitura”: “Esse caminho pode ser relacionar aquele livro a um filme, ou a um momento histórico e político, ou a outros livros do autor. Você está sugerindo ao leitor que ele comece a fazer ilações, analogias, comparações, questionamentos... Você interage com o leitor e o influencia na leitura.”

Sueli Cavendish, por sua vez, opina que a Crítica deve completar o livro. “É a reflexão que erige a Crítica como verdadeiro desdobramento das potencialidades existentes na obra”, afirma.

No entender de João Cezar de Castro Rocha, o crítico pode formar o leitor na medida em que o torna mais perceptivo, e não na medida em que transmite um juízo de valor. “A noção de crítico que precisamos recuperar é a do [filósofo prussiano] Immanuel Kant. Para Kant, a tarefa do crítico é sempre delimitar a sua capacidade de compreender o que ele tem diante dos olhos. Ou seja: não é aquele que avalia o objeto e dá nota de 0 a 10, mas sim aquele que, diante do objeto, pensa se tem condições de compreendê-lo.” Na reflexão kantiana proposta por Castro Rocha, a palavra do crítico não é um julgamento final e definitivo, mas um convite ao diálogo.
Já José Castello oferece ainda um outro papel que o crítico literário pode desempenhar nos dias de hoje, que se aproxima de uma “militância” em prol da Literatura e vai além das páginas de jornais ou artigos acadêmicos: “Não só escrever sobre Literatura, mas falar sobre Literatura. Dar oficinas, seminários, participar de congressos, de feiras, de festas literárias. Expor-se. Doar um pouco o seu olhar, o seu saber, dividi-lo, democratizá-lo. Em resumo: abandonar a torre de marfim e cair no mundo.”

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