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Fudai, tsunamis e gerenciamento de riscos para o patrimônio cultural


Publicado em 18/12/12 às 16h00 envie a um amigoenvie para um amigo

Quando, na década de 70, o prefeito da cidade de Fudai (Japão) decidiu construir um portão de 15,5 metros de altura para protegê-la de tsunamis, a um custo equivalente a 30 milhões de dólares atuais, sua decisão foi duramente criticada como desperdício de dinheiro público. Ele faleceu em 1997, sem nunca ter presenciado o uso dessa barreira protetora... Cerca de 30 anos após a conclusão da obra, em março de 2011, um terremoto de grande intensidade atingiu a região gerando um tsunami de iguais proporções, que devastou parte da costa nordeste do Japão. Localizada na zona atingida pelo tsunami, onde muitas cidades sofreram grande destruição, Fudai permaneceu virtualmente intacta e sem vítimas. O portão foi fechado e bloqueou eficientemente as ondas destrutivas, revelando-se uma excelente medida de redução do risco relativamente raro, mas catastrófico, de tsunamis.

O exemplo descrito acima é perfeitamente aplicável e reconhecível em muitas instituições patrimoniais, onde riscos de elevada magnitude são muitas vezes desconhecidos, percebidos como não prioritários ou intencionalmente negligenciados devido à sua frequência de ocorrência relativamente baixa, aos elevados custos das medidas de mitigação e à baixa visibilidade/aceitação resultante da implantação das mesmas, cuja utilização pode vir a ser necessária apenas muitos anos depois, provavelmente em gestões subsequentes. O risco de incêndio em instituições patrimoniais, tipicamente elevado, relativamente raro por instituição e cuja mitigação eficiente requer investimentos significativos, ilustra bem essa situação.

Os gestores de acervos culturais, para poderem tomar decisões bem instruídas e eficazes voltadas à preservação em longo prazo, acesso e uso sustentável desses acervos, necessitam ter uma visão abrangente de todos os perigos que os afligem, assim como da frequência ou rapidez com que tendem a ocorrer e de seu potencial de impacto, ou seja, de causar perdas e danos. Esses perigos incluem desde eventos catastróficos e tipicamente mais raros (inundações, deslizamentos, incêndios de grandes proporções etc.) até os processos graduais e acumulativos de degradação que afetam os materiais que constituem os acervos culturais (corrosão de metais, esmaecimento de cores, enfraquecimento estrutural por reações químicas diversas, biodeterioração etc.). A avaliação abrangente de todos os riscos possíveis e suas respectivas magnitudes permite estabelecer prioridades de ação e alocação de recursos, tipicamente limitados, para a salvaguarda e fruição de nossas coleções, edificações e sítios patrimoniais em seus respectivos contextos. Isso, por sua vez, estimula uma gestão mais transparente e uma maior integração interinstitucional e intersetorial.

O gerenciamento de riscos, ferramenta de gestão bem estabelecida e amplamente utilizada em outros setores, como meio ambiente, saúde, tecnológico, econômico etc., e recentemente introduzido no campo do patrimônio cultural, permite não apenas a identificação exaustiva, análise quantitativa e priorização dos riscos para um determinado acervo cultural, mas também contempla o desenvolvimento de medidas eficazes e estratégias sustentáveis para a mitigação desses riscos segundo seu grau de prioridade. A identificação sistemática e abrangente de riscos para o patrimônio cultural beneficia-se do uso de ferramentas conceituais como os 10 agentes de deterioração de acervos (forças físicas, criminosos, água, fogo, pragas, contaminantes, luz e radiação ultravioleta e infravermelha, temperatura incorreta, umidade relativa incorreta e dissociação) e as camadas de envoltório de acervos (região geográfica, entorno, edifício, sala, unidades de armazenamento, materiais de embalagem e suporte). Os riscos são identificados segundo cada agente de deterioração e nas distintas camadas de envoltório do acervo. Para o desenvolvimento de opções dirigidas à eliminação ou redução de riscos, outra ferramenta conceitual utilizada são as etapas de controle de riscos, que incluem: evitar (a fonte do risco), bloquear (os agentes de deterioração), detectar (os agentes de deterioração nas áreas de acervo ou sua proximidade), responder (de forma rápida e eficaz à presença dos agentes de deterioração) e recuperar (do dano causado, conforme necessidade). Obviamente, a prioridade do tratamento de riscos é a prevenção. Contudo, um gerenciamento de riscos responsável deve prever um grau de redundância com medidas reativas, caso aquelas preventivas venham a falhar. As medidas desenvolvidas são criticamente avaliadas segundo critérios de factibilidade, sustentabilidade, relação benefício-custo, complementaridade ou conflito entre si, introdução de riscos colaterais etc. Isso permite a seleção bem embasada das opções mais eficazes, cuja implantação pode ser estruturada em um Plano de Tratamento de Riscos.

A adoção séria e a integração do gerenciamento de riscos em nossas instituições e órgãos patrimoniais seguramente contribuirá para otimizar o uso dos recursos disponíveis e reduzir significativamente perdas e danos futuros ao patrimônio, em especial aqueles decorrentes da falta de informação e da falta de critérios robustos de priorização. Para podermos transmitir nossos acervos culturais às gerações futuras com a menor perda de valor e a maior acessibilidade possível, é imprescindível evitar o “achismo” e passar a orientar as decisões voltadas à proteção desse patrimônio com base em critérios bem definidos e em justificativas fundamentadas em dados estatísticos e técnico-científicos confiáveis. Obviamente, a gestão do risco implica a gestão da incerteza. Não podemos prever o futuro com 100% de certeza, mas é possível fazer previsões bem instruídas e certamente úteis para orientar as tomadas de decisão e maximizar seu impacto sobre a preservação do patrimônio cultural. É essencial, contudo, que os gestores e autoridades estejam realmente dispostos a utilizar essa ferramenta, mesmo que isso signifique a realização de ações pouco visíveis, aparentemente onerosas e sem resultados imediatos em curto prazo. Espelhemo-nos no exemplo de Fudai e comecemos a construir uma cultura de gerenciamento de riscos para nossos acervos culturais.

Por: José Luiz Pedersoli Jr., cientista da conservação e especialista em gerenciamento de riscos para o patrimônio cultural



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