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Arquivo de Setembro de 2010

O tempo e a Amazônia


Publicado em 28/09/10 às 09h00 envie a um amigoenvie para um amigo

As águas de março da Elis Regina já não ocorrem mais com a mesma regularidade de antes. O furacão extra-tropical no litoral Sul já não é mais novidade. Tornado da magnitude daquele de Guaraciaba (SC) pegou todos de surpresa. Inverno frio e verão quente são coisas que despertam saudades no cidadão comum. Para piorar, um novo ator surgiu com o nome de El Niño “modoki”. Este fenômeno foi apelidado de “modoki” (parece, mas não é – em japonês) porque, ao contrário do verdadeiro, este teve início em julho de 2009 e perdeu a sua força somente em julho de 2010. Consequências deste fenômeno? Seca prolongada na região Norte e enchentes no Sul, Sudeste e, inclusive, no Nordeste.

Na Amazônia brasileira ocorreram dois fenômenos meteorológicos atípicos em 2005. Em janeiro, ocorreu “downburst” ou roça de ventos em grande parte da região amazônica, que foi responsável pela morte de mais de 500 milhões de árvores. A partir de setembro do mesmo ano ocorreu uma seca atípica na região, que também provocou a morte de milhões de árvores. Somando os estragos destes dois fenômenos, em termos de emissões de gases de efeito estufa, o resultado foi, praticamente, igual às emissões pelo desmatamento na Amazônia daquele ano. A seca foi documentada, mas as chuvas somente foram descritas e, parcialmente, analisadas em 2010. Uma constatação importante sobre o ano 2005 é que a precipitação média anual foi, praticamente, igual a média histórica da região. Portanto, a variação do tempo dentro do mesmo ano foi terrível, mas entre anos foi imperceptível.

No ano de 2005, a Amazônia se mostrou muito vulnerável tanto à seca como também a chuvas com vento acima de 100 km/hora. Estes episódios mostraram também que a nossa capacidade em descrever estes fenômenos é muito fraca ficando fácil imaginar a nossa capacidade de fazer previsões. Sem previsões não é possível trabalhar com medidas preventivas e de adaptação. Em resumo, a Amazônia está entregue à sua própria sorte; o tempo maltrata a região e o homem pouco pode fazer para controlar o humor dele (do tempo). É bom não perder de vista que este problema não é exclusivo do Norte porque está quase comprovado que os ciclos hidrológicos das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul dependem muito das chuvas formadas na Amazônia.

Apenas nas últimas décadas do Século XIX a Terra alcançou o primeiro bilhão de habitantes; nos últimos 150 anos colocamos mais 6 bilhões neste planeta. Consequências? Aumento de consumo de tudo. Resultado? A concentração de CO2 na atmosfera subiu de 281 ppm (em 1850) para 381 ppm (2007). O que a mudança de humor do tempo tem a ver com isto? Estes aumentos coincidem com o advento do combustível fóssil; logo, a tecnologia tem muito a ver com o humor do tempo. Portanto, a tecnologia criou o problema, a tecnologia tem também a responsabilidade de mitigar o problema. 

O que cada um pode fazer? Primeiro é preciso diminuir o consumo de tudo. Depois é torcer para que a combinação de novas tecnologias e a economia de baixo carbono produza resultados.

Por Niro Higuchi, Eng Florestal, Pesquisador do INPA
Contemplado com o Prêmio Fundação Bunge 2010 na área de Ciências Florestais (categoria "Vida e Obra")

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