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Arquivo de Outubro de 2010

A importância do estudo da epidemiologia de doenças


Publicado em 13/10/10 às 09h30 envie a um amigoenvie para um amigo

Nos últimos cinquenta anos, o Brasil viveu um acelerado processo de mudanças sociais e demográficas. De 1960 aos dias de hoje, a população brasileira deixou de ser predominantemente rural para ter mais de 80% de seus habitantes vivendo nas áreas urbanas. A frequência de analfabetismo caiu de 40% para 10%. O tamanho das famílias brasileiras também diminuiu e o número médio de filhos de uma mulher reduziu de seis para menos de dois filhos.

Somadas às mudanças sociais e demográficas, a implantação do Sistema Único de Saúde na década de 80, teve importante contribuição para melhorias na saúde da população brasileira. Avanços no acesso universal aos cuidados de saúde foram alcançados e programas nacionais de saúde, a exemplo do programa de imunizações, do uso da terapia de reidratação oral, e do programa de tratamento para HIV/AIDS, tornaram-se referência em todo o mundo. Com tudo isso, a expectativa de vida ao nascer do brasileiro saiu de meros 50 anos na década de 60 para ultrapassar a casa dos 70 anos. Neste novo cenário, problemas de saúde associados ao envelhecimento, como hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares e neoplasias, têm ganhado cada vez mais importância. Entretanto, a manutenção no País de elevada desigualdade social associada à rápida e desorganizada ocupação das áreas urbanas levaram ao surgimento de comunidades carentes (favelas) com inadequadas condições de saneamento e habitação, onde doenças transmissíveis continuam a existir.

Entre as doenças infecciosas associadas à pobreza ou a falta de infraestrutura urbana podemos citar como importantes problemas de saúde pública as infecções respiratórias, as doenças diarréicas, a hanseníase, a febre reumática, a dengue e a leptospirose, entre outras. A leptospirose se destaca entre este grupo de doenças pelo paradigma que representa de uma doença que emergiu neste novo cenário. A leptospirose é uma doença transmitida para os homens através do contato com a urina de animais infectados ou através do contato com água e lama contaminados pela bactéria. No meio urbano, o principal animal que serve de reservatório para a transmissão da leptospirose é o rato de esgoto. Todos os anos, durante as estações mais chuvosas, epidemias de leptospirose acometem as comunidades urbanas carentes onde a ausência de saneamento e drenagem adequados propiciam a reprodução dos ratos e predispõem seus moradores a contato com águas contaminadas. Cerca de 12.000 casos são notificados a cada ano no País com um em cada dez doentes evoluindo para o óbito.

Desde 1996, nosso grupo de pesquisa na Fiocruz de Salvador, em colaboração com associações de moradores de comunidades onde a doença tem elevada incidência, bem como com parceiros da Universidade Federal da Bahia, das Secretarias de Saúde de Salvador e da Bahia, do Ministério da Saúde, e de outras instituições nacionais e internacionais vem investigando a epidemiologia e a patogênese da leptospirose urbana, com o objetivo de determinar o impacto da doença e identificar novas abordagens de prevenção e controle. Este trabalho conjunto tem trazido importantes contribuições: Os estudos mostraram que as incidências de infecções subclínicas e de formas leves da doença são cerca de cem e cinco vezes mais frequentes, respectivamente, do que o observado para as formas graves da doença. Isso indica que o impacto da doença pode ser muito maior do que previamente reconhecido. Foi identificado que a maioria das infecções no meio urbano é adquirida próximo ao domicílio e não durante atividades de trabalho como anteriormente se pensava. Além disso, avaliações da efetividade de estratégias de prevenção, incluindo desratização e programas de saneamento e drenagem, estão em andamento e um teste rápido, capaz de dar o diagnóstico da doença em apenas vinte minutos, foi desenvolvido e sua eficácia será testada durante o ano de 2011.

Um dos maiores desafios para a saúde pública no Brasil é lidar com a complexa epidemiologia de doenças que emergiu no País. Se por um lado as doenças associadas ao envelhecimento são as que predominam na população em geral, determinados grupos populacionais ainda continuam sob elevado risco de adquirir doenças infecciosas. Pesquisas e políticas públicas com foco na prevenção, controle e promoção da saúde vão precisar cada vez mais ser direcionadas para os agravos que se tornaram mais prevalentes com a transição epidemiológica que o país vive, mas sem deixar de contemplar os antigos problemas de saúde que teimam em persistir ou que reemergiram. A criação pela Fundação Bunge de uma nova subárea temática, Saúde Pública e Medicina Preventiva, para premiação no ano de 2010 é um importante reconhecimento da necessidade de continuarmos avançando nesta área do conhecimento humano para o bem sociedade.

Por Guilherme de Sousa Ribeiro, médico formado pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ.
Contemplado com o Prêmio Fundação Bunge 2010 na área de Saúde Pública/Medicina Preventiva (categoria Juventude)

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